Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Brest

João-Afonso Machado, 15.04.24

O comboio deixara para trás uma cidadezinha feliz, onde sequer faltava o morro com as ruínas do castelo nele. Depois ensaiou umas curvas derrapantes, furou uma colina e deu de caras com o porto marítimo, a marina e a imensidão do Atlântico mais lá. Era Brest. Já com o sol a pôr-se...

IMG_9173.JPG

O poiso de dormida descobri-o pouco adiante. Chamava-se mesmo Hotel Gare e, muito ao meu gosto, tinha chaves para a porta, em vez do famigerado cartão no meu bolso... As águas permaneciam à vista e, antes do hamburguer e da fatal caneca, vagueei pelas proximidades do cais.

A manhã seguinte acordou ao som de conhecidos tocares escoceses em gaita-de-foles, no prédio ao lado.

GAITA DE FOLES.JPG

Foram horas cismáticas, centradas nos tormentosos mares da Bretanha. Algo distantes da cidade. Por isso me dirigi ao Posto de Turismo e pedi um mapa e informações sobre autocarros. Seria, também, um modo expedicto de conhecer, atravessar, Brest. E fui, não sabia exactamente para onde, para o ponto final daquele percurso do "2b". Aí chegado, o sentido de orientação dizia-me que o oceano estava para lá de um grosso bosque a poente. Parti nessa solitária direcção, calada e muda, um punhado de quilómetros de acentuado declive em que o mar se sentia aproximar. 

IMG_9186.JPG

Errei, contudo, a pontaria e fui dar a uma enseada cascalhenta, de todo esquecida, cercada de avisos de perigo para os pescadores e sem crença alguma no peixe.

IMG_9192.JPG

Um fiasco! - Madame, s'il vous plait, oú sommes nous? - inquiri quando, por fim, um automóvel passou e parou a um sinal meu. - Je ne sais bien mais ça c'est Le Grand Dellec - foi a resposta que me deixou abrindo o mapa, percebendo que perdera, algo mais a sul, o Fort du Dellec e uma promissora Pointe du Diable (sur la mère, il faut dire...)

Tornei ao esticão pedonal. Sempre sem vivalma no trajecto e sempre intimado pelo uivar do vento bretão. Talvez atento ao arvoredo circundante, tanto dele tombado pela raiz...

IMG_9193.JPG

Enfim, voltei à cidade. Abria-lhe as portas a elevatória Pont du Recouvrance, sobre o rio Penfeld.

IMG_9205.JPG

Será, no género, a segunda maior da Europa. E tudo nela circula: o tramway, os autocarros, os automóveis, as bicicletas, os peões. O rio, sob ela, tranquilo, portentoso de embarcações e amuradas, já com o estário à vista.

IMG_9210.JPG

Mesmo à ilharga, o castelo, hoje Museu Nacional da Marinha, um monumento oferecendo muitos ângulos à fotografia.

IMG_9216.JPG

A tarde prosseguiria rondando o porto e as docas, incapaz de lhes tocar. Não é de pesca que ali se discute, mas de cargas. Contentores poisados num cimento frio e tartamudeante.

IMG_9219.JPG

Na vizinhança, a marina, o lazer.

IMG_9215.JPG

Ela também inacessível. Brest parece não ter esquecido nem os seu heróis da Guerra Mundial nem os aramados que a farpearam então. Mas pelo aglomerado dos veleiros, há aventura para lá da História e da barra, em pleno Atlântico bretão.

 

O "arranha-céus"

João-Afonso Machado, 11.04.24

ARRANHA-CÉUS (PRETO E BRANCO).JPG

O Pai goza e ri, desdramatiza. A Mãe não solta palavra, carregada de filhos. - Ora cá estamos no maior prédio do Porto, o "Arranha-céus"! - Todos esticamos o pescoço oito andares acima, altitude impensável, vertiginosa, a competir com os Clérigos. É o dia tremendo das consultas. Na Praça D. João I.

A entrada, imponente e marmórea; o elevador de grades barulhentas; a gente sabedora de uma tarde toda de maçada silente, acabrunhada. Há brinquedos trazidos para entreter as longas esperas, afinal remédio de minutos, antes os mergulhos nos sofás de napa...

As senhoras da recepção sabem tudo menos a afabilidade. Usam meias que lhes ocultam os pêlos das pernas, uma cabeleira cheia de atavios, vestem-se de bata branca, muito sisudas. Diante delas a Mãe é quase uma menina... É com os Pais que falam numa linguagem só perceptível pela intuição de uma tarde tormentosa. E ela - a famigerada tarde - principia com o Pai, engenheiro, tentando a sorte do funcionamento dos eléctricos cujo telhado, assim de cima, é visto e comentado por não mais de meia hora. Depois o regresso à enfadonha espera, já fartos de tudo, impacientes e inquietos, expressamente proibidos de pular nos sofás.

Chega, pós horas, a consulta de pediatria para os putos. Há pesagens na balança e apalpações antes da conferência final entre espessas baforadas do fumar do médico e do Pai, enovoando o respirar de todos. Contudo o programa não findara e, após intervalo, segue para o dentista: o Dr. Adérito, um suplício que emparceira com o Pai na caça. Homem alto, vigoroso e conversador. De bata branca, também. Armado de uma broca articulada que ele usa como quem corre a mão no tiro à perdiz, zunindo disparos que meticulosamente vai descrevendo ao Pai. Sobram guinchos e esperneares - Menino, menino!...

E, quando não, a clínica de radiologia, ainda no mesmo imenso andar. Para as radiografias, ao menos um mistério indolor e quase imediato porque o "Sr. Doutor" é primo do Pai e com isso não há perucas nem meias tapa-pêlos ou batas estultas.

Escurece, entretanto, quando a malta sai do "Arranha-céus". - Clang, clang! - despedem-se as "lagartas" do elevador. Honrando o compromisso dos Pais ante a filharada, bem comportada, segue-se o lanche - bolos e Sumol - na Arcádia. Já a passarada chilreia nas árvores sobre a paragem dos eléctricos. E toda a razão ao Pai, o "Arranha-céus" maldito era nada, basta ir a Lisboa, onde os primos vivem sosegadamente num 10º andar de vistas para o mundo até aos Clérigos. Sem pediatras, brocas e pernas peludas escondidas.

 

De comboio na Bretanha: Rennes, Saint Malo, Brest

João-Afonso Machado, 06.04.24

Tudo é excessivo, sobretudo a aceleração do tempo, sem tempo para outros retratos senão os rabiscados pela lapiseira. Uma aposta, um equilíbrio até, no curso das horas à janela da carruagem. Que a mão tremia, o desenho negava-se a ganhar vida e movimento, infiel até à última tentativa. Esbaforido na gare de Rennes, de court par court, num planeta muito maior do que Santa Apolónia e Campanhã juntos, e o Oriente a fazer força também. Foi por ralos minutos...

IMG_9064.JPG

Partiu. Nada coxeante. Atenuava-se o meio urbano, clareava o fim dos túneis, os complexos fabris prontamente se arredaram. Estava aí a França campesina. Os muitos prados, a dispersão das quintas de telhados de ardósia em ângulo agudo, visto a neve dever ser tu-cá-tu-lá com os invernos bretões. E a abundância da chuva, a avaliar pelos cursos de água (o melhor da região), uns sequentes aos outros, vindo todos por cima das margens. Havia lugares pantanosos, prados alagados, bandos de garças brancas, os corvos voando ao longe sobre as sementeiras. Volta e meia, um rio de leito mais amplo, acastanhado de terra ida na correnteza. E navegando em paralelo com o comboio, teso e barbeado como um canal. Não pode subsistir sede na Bretanha e em todos os lugares cheira a peixe, bom peixinho para tirar à cana, não sendo raros os pescadores avistados.

Galopávamos. A amabilidade da paisagem adormeceu-me em sonhos esverdeados pelas galochas, acastanhados pelo boné, frios como o ferro da arma nas mãos; e muito ladrados pela alegre companhia de perdigueiros. O sonho imparável do maná bretão, em penas, em pelo ou escamado. A estadia numa terrinha qualquer, os serões à lareira, soam góticos sinos nos torreões a dar horas - fora, afinal, mais uma aldeia (uma comuna) que ficara para trás muito bem comportada no ambiente em que se integrava. E raramente uma estação, algumas almas a entrarem ou a saírem do comboio. O tempo de uma fotografia testemunhando o paraíso na terra...

IMG_9067.JPG

Está por saber porque os portugueses não se tratam assim: deixando o regadio distender-se, demarcando as propriedades com renques de árvores, cedros ou pinheiros mansos, não transformando em lixeiras os pauis sob vegetação impenetrável senão talvez em chatas. Faias, choupos, salgueiros, alguma podridão a asselvajar o outro lado da minha janela. Intermitências de sonolência e olhos vivos e espantados. O comboio foi até Dol de Bretagne, donde um autocarro não demorou a chegar a Saint Malo.

Retomando o passeio, o dia seguinte, na estação desta cidade, deparei com um terminal de quatro linhas apenas e duas gaivotas atrevidas, inventivas e gulosas.

IMG_9168.JPG

No caminho de Brest, o quadro ondulava na sua orografia. Cresceu a visão do gado vacum e cavalar e os rebanhos de ovelhas. E dos matagais, a paisagem era mais bravia embora repetisse o pendular surgimento dos povoados e, num deles, mesmo um stand de carros usados onde dormitavam uns Renaults sobreviventes dos Anos 80, amáveis, anciãos, contemplando a via férrea num banco corrido, como outros idosos quaisquer.

De quando em vez, o amarelo espaçado e vasto da tremocilha 

IMG_9068.JPG

e o discreto pingar, de longe a longe, das casas das quintas, o almejado refúgio de um dia talvez. Pombos torcazes, bandos deles... Outrossim mais um regato caracolando no fundo, desaparecendo quando os taludes submergiam o comboio, ressurgindo depois. Da Normandia até Brest, na ponta ocidental, foi quase a Bretanha toda, e um vincado anseio de apear do comboio e seguir os trilhos e as margens. On verra quelque jour...