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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Pêro, o assassinado

João-Afonso Machado, 06.02.26

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Nasceu da mãe Minês e do pai Jardel, em ninhada do melhor capítulo mas, toda ela, destinada à tragédia. Foi um dos escolhidos para ficar em casa e prosseguir o brilhante desempenho do seu progenitor.

Com seis meses de idade ia já ao campo, e aprendera as rigorosas leis da disciplina e da obediência.

Bela cabeça, a sua! Pêro prometia muito, era o espelho do orgulho do seu criador e dono.

Mas o drama ocorreu na ausência deste, antes ainda de saborear o aroma das codornizes e da pólvora dos cartuchos. A quinta era povoada de cães e cadelas, e uma destas entrou em cio...

Os machos seguiram o instinto sem perdão, somente animalesco.  Pêro já estava no tempo, era moço de calores, mas sem argumentos de corpulência para ombrear com os demais da companhia. Numa certa manhã foi encontrado estendido no meio do terreiro, esventrado e moribundo.

Chamaram o dono e o Pêro de imediato seguiu para a clínica veterinária. Depois foi um tremendo combate de uma semana pela sua vida. Infelizmente perdido, os ferimentos eram profundos, as suas entranhas estava num caos.

Restaram a sua memória, as suas cores, o camurça e o branco da sua fronte; a expressão que só um perdigueiro tem, a sua imensa simpatia. Tudo era agora uma recordação, uma vida ceifada precocemente, o vislumbre de onde poderia ter chegado e não chegou. Houve facilitismo e a ausência (há que o reconhecer) de quem o pouparia a tanto sofrimento.

 

"Natália"

João-Afonso Machado, 01.02.26

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Se nevasse Natália

tão escassa é a neve e o frio arrefecendo

por breve,

tal a fogaça do sol fervendo,

 

seria ainda menos calor entre nós Natália,

seria sempre distância, nunca amor,

 

que o tempo não perdoa

nem cala a ânsia Natália…

 

Aqueçamos os dias antes do fim,

basta um sim, um beijo enfim,

 

mas agora Natália,

antes que, Amália (… perdão, Natália)

o relógio pare em mim.

 

Um sapal de Hiroshima

João-Afonso Machado, 28.01.26

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Disse - não! Não, não iria embora por enquanto. Ficaria até ao fim, não falo outra lingua senão a minha e estou velho para aprender outra.

Os amigos ouvem, não contrariando, e recomendam cautelas, toda a felicidade, abrem abraços, despacham-se e vão partindo, deixando o sapal para trás.

Vislumbro carros e adeuses carregados de emoção. E a tristeza de tanta escrita perdida. Eles vão migrar, dizem.

Já ao longe oiço o roncar do bombardeiro mortífero. O sapal treme. Será Londres? Dresden? Hiroshima (- "meu amor")?

Será algo semelhante, exterminador. A minha casa não goza de privilégios. Tombará como as demais. Mas eu fico. Até ao último dia, até à bomba devastadora, eu fico porque quero assistir à hecatombe, quero levar o meu protesto à derradeira instância.

É isso: permanecerei no sapal. Ando a ler Agustina Bessa-Luís e vou no dia «em que a bacante acordou, dia de transferência de valores e de grande desordem emocional, o dia da República» (O Mistério da Légua da Póvoa).

Corresponde. De valores no sapal já nada sei, de desordem emocional talvez. E da República, no sapal, e fora dele, - com certeza, levo a cada hora uma pior surpresa ainda.

(Aí vai mais um ex-residente, o braço fora do vidro da viatura, um acenar seu, - Adeus! - resignadamente, o saber e a coragem de um gesto já eterno.)