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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Gafanha da Nazaré (porto bacalhoeiro)

João-Afonso Machado, 04.08.23

Conheço-o há muitos anos e sempre sabendo do seu infortunio depois de tantas aventuras narradas, agora que o amarraram pelas narinas nesta masmorra a céu aberto. Foi veleiro a dar muitas voltas ao mundo, bacalhoeiro ágil e exímio. Se já não tem nome, só a ferrugem que lhe comeu a tinta o devorou também.

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E enganaram-no. Quem o comprou e o fundeou no Porto Bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré, e proclamou recuperá-lo, devolvê-lo já não talvez à faina da pesca ao longe, mas ao orgulho do seu velame ao vento a soprá-lo oceanos além, a quantos quisessem ouvir esses sons velejantes e ir, ir, ir, que o planeta é o verbo ir.

São por isso de inconformismo as minhas frequentes peregrinações à Gafanha da Nazaré. Tudo é igual menos esse menos adoptado que a salinidade vai roendo. No resto,

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os grandes armazéns de retém do pescado lá continuam entre os odores a maresia e do peixe descarregado que enchem por completo o ambiente local.

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O cais é uma fila longa de navios encostados. Em alguns, formigas humanas distinguem-se nas amuradas ou ao longos dos convéses. Não lhes falta cor nem proa fininha a rasgar a ondulação, até onde quer que lancem as redes e tragam na sofreguidão do seu arrasto quantas toneladas a empobrecer o "mar salgado" de Pessoa pela rampa das suas popas.

Há-os ainda maltratados por tanto labor, quase como se não tivessem direito a uma lata de óleo para lhes untar a maquinaria.  Nem uma simples colher de mel sobre as engrenagens...

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E a gente a bordo em torno deles, o circo é Ílhavo, um inferno, a capital portuguesa do bacalhau. Dura, implacável e prenha dos estalidos dos chicotes. A estalar dos impávidos armazéns nas cercanias.

À margem do drama as gaivotas debicam o peixinho miúdo, mergulhando a pique na maré baixa.

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E no bairrinho da doca o bando de patos brinca, vai em fila. Nem um voo lhes apetece...

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Na outra margem, de rabo voltado para as águas, mais embarcações de bom calibre, estranhamente a parecer querer lhes lavem as partes.

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Talvez seja da nortada, hoje muito inspirada. Mas aquele veleiro ancião de quatro mastros navega o meu espírito ainda de madeirame branco e dourado, fechos polidos nas portas das cabines. Tudo reluzindo. E o pano enfunando barra fora, um comandante, o imediato, a marinhagem... e eu. Eu fazendo não sei bem o quê além de aspirar os ares, blusão vestido (ou somente t-shirt, aspirando impressionar a tripulação...), aspirando sempre colher à mão a linha do horizonte. É, eu a bordo, eternamente um aspirante...

 

Agosto

João-Afonso Machado, 01.08.23

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Talvez Agosto seja - "a gosto". Porque haverá muitos Agostos, ao gosto de cada qual. Há seguramente dois Agostos e muitas tristezas envolventes. Os Agostos são territoriais e impositivos,  tantas vezes a contragosto. O mais grandiloquente, um caudilho, manda a gente para a praia. É o Agosto, tantas vezes um desgosto, das multidões barulhentas, um mandrião a correr pela estrada fora. Mas subsiste o outro, tanino, quase medroso de sair de casa. Agosto, feitas as contas, é um momento pessoal e intransmissível.

Diga-se: velhos resistentes permanecem resistindo. Probamente contra as modas, na perseverança dos seus dias além da mioleira geral - um oiro que não há balança capaz de o pesar.

Dando de barato o Agosto migratório e as areias que o acolhem, mais os engarrafamentos no mar dos banhos, - vamos aos ninhos no outro Agosto que fica por aí,  em casa, muito caseiro, de barriga cheia (grávido) de silêncio.

Um Agosto de aqui e além. Dormido, nutrido, pasmaceiro e provinciano. Esperando a limpeza das dunas, preçários conformes, o falar nativo e o arejo depois das fronteiras...

Tudo é o que se escreve em Famalicão, madrugada esperançosa de um amanhã sem buzinas nem roncares. Agosto são duas quinzenas e o mundo uma rotação infinita, um mapa colorido. O calar um bom conselheiro, e uma ou outra incursão a excepção que confirma a regra. Tal é o Agosto descrito em caneta anciã.

 

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