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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Conimbricense aziago dia

João-Afonso Machado, 05.12.23

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Necessitado de ir a Coimbra, deixei-me ficar, sem oferecer resistência, pelo velho Astória. Chek-in efectuado, poisei a mochila no quarto e parti para a vadiagem. Mas a cidade despia-se logo à saída de Coimbra A: obras! A praga (como as traças) das obras! Mecos nas ruas, rotundas improvisadas, filas infindas de automóveis, uma manifestação pró-Palestina na Portagem com destino e slogans até Santa Cruz... Enfim mirando o Mondego sosseguei nas asas das gaivotas. E recordei essa minha descrente amiga que nem admite elas não sejam exclusivas do litoral. Sorri. Há que tempos não a vejo nem oiço os seus firmes dizeres. Ali mesmo, então, rabisquei um postalito que descobri, com as aves muito comportadas, todas em filinha como os piriquitos numa gaiola. E enfiei-o numa marco de correio próximo, com recados, manifestações de saudades e um sublinhado na legenda "Mondego - Coimbra".

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Há de o receber qualquer dia, que os serviços postais nesta época do ano são umas lesmas. E tornando à maçada na cidade enfiei pela Ferreira Borges e não resisti, cortei para o Arco de Almedina onde se ouvia o fado, através da sanfona de um alfarrabista e vendedor de souvenirs. Um nada à frente, casas de petiscos e a aquietada animação da Travessa do Quebra-Costas. Um número incontável de máquinas fotográficas, a curiosidade espelhada na cara de cada passante. Lembrei-me que tinha fome e sentei num «bistrô e café»: alheira e ovos mexidos, um copo de bom tinto da Bairrada... Mais umas notas escritas, uma espreitadela aos retratos tirados e a percepção de que a noite estava quase aí... - e eu ainda sem ter pago parte das minhas dívidas...

E Coimbra sempre quezilenta mais em baixo, as gaivotas já em pijama, o sol também. Iria por Santa Cruz, que lá repousa o nosso primeiro Rei... Mas não é que a manif dos palestinos assentara arraiais frente à igreja? Marimbando-se para o recato devido a Sua Magestade e ao culto?! E só pequenas, algumas morenas, bem bonitas, talvez vindas dos orientes, felizes por se poderem soltar e gritar dizeres impercepíveis, valha-nos isso.

Impedido de beijar a mão ao Fundador, fugi habilmente pela Rua da Sofia - desgraçadamente ausente, cadavérica e vazia, quase toda num breu de sepultura. Embrenhei-me nos seus acessos e só parei no Astória, neste quarto que chia, chia, chiam as portas, chiam as cadeiras, chia a secretária, até as páginas do meu Italo Calvino parecem ranger ao serem voltadas. É o fim do corredor no terceiro andar, sequer com vista para o Mondego. O Benfica acaba de eliminar o meu Famalicão na Taça de Portugal; não sei explicar como nem porquê, o que via eram simplesmente formiguinhas no ecrã pendurado na distante parede do lado oposto à cama dos meus aposentos...