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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 24.12.23

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Urgia aplacar os espíritos. Uma zanga - jamais! Assentou então, a minha sonora e discursante loira amiga, num passeio até Cacilhas com almoço - um peixinho grelhado - em amena cavaqueira sobre a vida que nos tolhe, sobre tudo. O dia marcado saíu nebuloso, feio, um dia que (pensei logo) seria uma prova dos nove.

Por coincidência, ambos tínhamos lido recentemente o Filipe I de Portugal, o Rei Maldito da Isabel Stilwell. Obra curiosa. E não podendo deixar de vir à baila entre as baforadas do nevoeiro que nos cercava.

(Um minhoto é sempre um homem de uma só fé. E um minhoto verdadeiro aguardará sempre a Coroa que há de regressar. Tudo sem prejuízo da realidade quotidiana que nos diz nada cai do céu aos trambolhões...)

Porém, o cinzento do dia e o desaire lido de Alcácer Quibir principiaram a suscitar falas incomuns na minha amiga. Uma crise aguda de misticismo, nunca a vira assim. Toda a nossa toldada visão significava o advento d'O Desejado. D. Sebastião estava iminente, ela sentia-o, a profecia realizar-se-ia a qualquer momento, o prenúncio de uma Nação ressuscitada. Paradoxo dos paradoxos, retorqui com a tese de que O Desejado estava em cada um de nós e na nossa audácia. Até citei Pessoa e a sua Mensagem, da pouca poesia que sei de cor, - «Minha loucura outros que a tomem/Com o que nela ia/Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria».

Debalde. Havia somente que esperar (um nadinha, era hoje) por El-Rei. (Imagine-se!) E esta fulgorosa troca de ideias entrou cacilheiro adentro, de espada em riste, troando os trons quinhentistas e misteriosos, reencarnando a hoste inteira de D. Sebastião.

Confesso, desliguei. Fui tomando nota das cores ocultas, do Tejo, dos sulistas a bordo, malta suspeita de aspecto obviamente republicano... E de súbito um berro - Ai! Vamos ser abalroados! - Placidamente espreitei a escotilha, sob o nervosíssimo tilintar das suas pulseiras. Um senhor minhoto não perde a fleuma mesmo com uma embarcação direita à nossa, de bombordo... Comentei tão-só - Viva! Há de ser D. Sebastião já entrado no Tejo!