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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

A falta que me faz, o velho Figueira (bis)

João-Afonso Machado, 29.01.24

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Vinha já do tempo dos almocreves, o velho Figueira. Homem feito, conheceu o correio postal, os pioneiros sêlos com a efígie da Senhora Dona Maria II, a nossa Rainha, e foi no tempo daqueloutros, escalados dos cinco centavos aos cinquenta mil reis, cada degrau da sua cor, com o cavalo a galope e o cavaleiro agarrado à corneta, foi nesse tempo já remoto, dizia eu, que o velho Figueira exerceu em pleno a sua actividade de carteiro

(E nunca ele me soube explicar para que servia, então, um sêlo de cinquenta paus. Se não fosse para coleccionadores, havia de ser para despachar contentores vindos do outro lado do mundo.)

Sucede, Salazar, sempre em intrigas, desconfiando de tudo e de todos, deu em implicar com o velho Figueira: despediu-o, pô-lo a vender lotarias para sobreviver. Foi quando lhe deitei a mão, era homem de palavra e sério, sempre sério, no serviço. Da maior eficácia. E passou a ser o meu correio - Ó Figueira, ponha-se lá na mula e leve esta encomenda a tal parte... Quanto é? - E, contas ajustadas, por muitos pinheiros que a tempestade deitasse ao chão, por mais lobos que lhe saíssem ao caminho, o velho Figueira desincumbir-se-ia  certinho da sua missão.

Sempre de fato cinzento e cigarro chupado a afogar-se no canto espumoso da sua boca. A voz roufenha, a goela ávida de uma malga de carrascão. Mas hirto, a prumo, em cima da montada, e muito educado. Assim topasse alguma hesitação no destinatário, logo balanceava a peroração - Vossa Senhoria, solicitou (palavra muito do seu agrado)... - exactamente, como eu explicava, Vossa Senhoria tem perante si o pretendido. E Vossa Senhoria compreende, eu tenho aqui o registo do solicitado, e uma vez registado...

E era que nem ginjas! A encomenda ficava na morada para onde devia ir. Ao dia seguinte, fazíamos contas...

O velho Figueira, o meu distribuidor, como lhe chamava, era um génio comercial. Mas ninguém inventou ainda um remédio contra a cavalgada do tempo. E ele é muito mais rápido do que as alimárias dos almocreves ou mesmo a do velho Figueira. E assim este meu fiel foi transitando para velhíssimo.

Chegou a centenário, quase bicentenário, tinha já inscrição no Antigo Testamento. Mas o Destino cumpriu-se, fatidicamente.

Ficou nas minhas mãos um trabalhito para ele acabar. Pois terei de ser eu, agora. Mesmo porque, embora sem a fibra do velho Figueira, nada me apetece ser incomodado pelo fantasma de Salazar, ou por essa horda que não nos poupa nos tributos, os seus descendentes.

 

"Camilo e os de Pindela"

João-Afonso Machado, 24.01.24

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Do genial Camilo Castelo Branco não há que dizer mais. Viveu muitos anos na freguesia de S. Miguel de Ceide, aqui ao lado, onde morreria tragicamente. Se eu sei escrever duas linhas com algum senso, a ele (e a Eça) o devo. Ponto. E sobre Pindela? Reticências...

Pindela é, antes de mais, o meu sangue ainda circulando. É a minha história pessoal. Não será difícil entender. E, todos sabem, a História integra o futuro, não é apenas o Passado, assim como o Presente não existe, é somente um passageiro momento na circulação de antes para um depois que se quer perpetuado. Há quem goze apenas - está na moda - esse momento que, em si mesmo, não constroi e tudo vai destruindo.

Por isso nada mais acrescentarei. A amizade, a solidariedade, a compreensão entre e Camilo e os de Pindela - mais exactamente duas gerações suas coevas - foram marcantes e estão por múltiplas vias registadas. O meu trabalho foi ajuntá-las. E assim andei pelos idos de 1846, na turbulência da Patuleia, pela vida aceitavelmente de entretenimento, nas cidades da nossa Província, pelo ultra-romantismo tripeiro, pela novidade das temporadas termais. Trouxe o Passado à actualidade, mantive o culto que amigos de cá ainda sustentam por força dos seus antecessores também. Em suma, prossegui esse historial de veneração ao Mestre. Busquei episódios de tanta gente das suas relações...

... E fiz uma promessa, após meses de investigação e escrita, - tão cedo não volto a publicar! Esperam agora por mim a ficção e a poesia.

 

O Hilário

João-Afonso Machado, 22.01.24

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Nos idos em que caçar não era caro, a freguesia parecia uma colmeia de caçadores. Um zumbido excitado na véspera do regresso às vinhas e às matas, em volta de uma, duas, três, um entardecer inteiro de cervejas na taberna, e do costumeiro bagacinho do Hilário.

O tempo não esvanece a sua figura. O Hilário, o mais idoso do enxame, um voar já custoso, quase arrastado, distinguia-se pela sua veneranda calibre 12, uma arma de canos longos e de cães ainda. Talvez mesmo um dinossauro oitocentista. Mas bem amestrado, sempre fiel ao dono.

Faltar-lhe-iam já os reflexos. O Hilário não pendurava muita caça à cinta e atirava com outra convicção aos coelhos. Porque as perdizes requereriam depois um longo historial a justificar o disparo falhado, a azelhice...

Mas um dia houve que foi o seu. A notícia perspassava os bardos e saltava de exclamação em exclamação - O Hilário caçou uma lebre!

A faina suspendeu-se para todos testemunharem a proeza do Hilário. E ele lá estava, muito sorridente, a lebre aos pés e o velho fusil de cães na vertical, as mãos ambas amparadas na boca dos canos da arma. Parecia o Bulhão Pato.

Não será complicado descrever aquela presença de faces enrugadas e tisnadas do sol, a barba dois dias atrasada. Alto, seco, a conversa enrouquecida pelo cigarro sem filtro. De boina preta e camisa ou blusão surpreendentemente garridos, e as galochas a defenderem-no da humidade matinal. Era assim o Hilário.

No ano seguinte ao anterior, não surgiu com a sua histórica clavina e o rafeirito. - Que é feito do Hilário? - O Hilário morrera, levaram-no os rigores do inverno transacto. Mas onde jazerá o Hilário? Foram quantos despedir-se dele? E o destino dado à sua inesquecível espingarda de cães?

Que descanse em paz, amigo Hilário. Para seu sossego, a bem dizer a caça não lhe sobreviveu. A vida está ruim e a gente acredita, Deus reservou-lhe uma vinha eterna cheia de coelhos e lebres e perdizes. Consta por aí, até lhe afinou a pontaria! 

 

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