Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Já chegaram!...

João-Afonso Machado, 14.02.24

SEREZINO.JPG

A senhora belga e o cavalheiro alemão espreitam atentamente o jardim e ouvem as explicações debitadas num misto macarrónico de francês e inglês. Conhecem a praga que atacou os nossos buxos e não estranham, por isso, as clareiras dos canteiros. Talvez tenham chegado cedo de mais, antes ainda das glicínias, das rosas e do florir da buganvília. Nem se aperceberam do peto verde que poisou num galho nu, sem pressa, como se a máquina fotográfica estivesse ali; e não estava, o raio da máquina, esquecida na varanda durante a conversa!

Tudo aparenta a continuidade distraída do inverno. Salvo o chilrear constante dos serezinos, os arautos primaveris (como quaisquer botõezinhos que rebentem nos arbustos), uma luz vaga que já se cheira no horizonte.

Porque as horas do dia são maiores, embora haja fortes reservas de frio para quando o sol se esvai. E muita chuva prontinha a molhar gentes e terras, a maçadora. Mas os cerezinos já chegaram e, com eles, o fim do mutismo do jardim ou a melodia autista das toutinegras.

Namoram intensamente de árvore para árvore, eles esganiçando-se sempre por elas. Não será de cuscuvilhar os seus amores, apenas se amarelecem os olhos naqueles canarinhos cheios de vigor, esverdeando-se as tardes inteiras, furando-lhes semanas e semanas de sonolência.

Eu insisto, são os ecos da primavera ainda do outro lado dos montes. Mas cavalgando para cá, anunciada pelos cerezinos. (Ou serinos ou chamarizes, como há quem assim os nomeie.)

Sendo que o amarelo esverdeado dos cerezinos jamais mente: corre já uma brisa dos tempos novos. Tal qual se vai explicando à senhora belga e ao cavalheiro alemão, num misto macarrónico de francês e inglês.