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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Já chegaram!...

João-Afonso Machado, 14.02.24

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A senhora belga e o cavalheiro alemão espreitam atentamente o jardim e ouvem as explicações debitadas num misto macarrónico de francês e inglês. Conhecem a praga que atacou os nossos buxos e não estranham, por isso, as clareiras dos canteiros. Talvez tenham chegado cedo de mais, antes ainda das glicínias, das rosas e do florir da buganvília. Nem se aperceberam do peto verde que poisou num galho nu, sem pressa, como se a máquina fotográfica estivesse ali; e não estava, o raio da máquina, esquecida na varanda durante a conversa!

Tudo aparenta a continuidade distraída do inverno. Salvo o chilrear constante dos serezinos, os arautos primaveris (como quaisquer botõezinhos que rebentem nos arbustos), uma luz vaga que já se cheira no horizonte.

Porque as horas do dia são maiores, embora haja fortes reservas de frio para quando o sol se esvai. E muita chuva prontinha a molhar gentes e terras, a maçadora. Mas os cerezinos já chegaram e, com eles, o fim do mutismo do jardim ou a melodia autista das toutinegras.

Namoram intensamente de árvore para árvore, eles esganiçando-se sempre por elas. Não será de cuscuvilhar os seus amores, apenas se amarelecem os olhos naqueles canarinhos cheios de vigor, esverdeando-se as tardes inteiras, furando-lhes semanas e semanas de sonolência.

Eu insisto, são os ecos da primavera ainda do outro lado dos montes. Mas cavalgando para cá, anunciada pelos cerezinos. (Ou serinos ou chamarizes, como há quem assim os nomeie.)

Sendo que o amarelo esverdeado dos cerezinos jamais mente: corre já uma brisa dos tempos novos. Tal qual se vai explicando à senhora belga e ao cavalheiro alemão, num misto macarrónico de francês e inglês.

 

No Entroncamento

João-Afonso Machado, 09.02.24

A cidade (e o mini-concelho) que nasceram dos comboios. Que há um século seriam pouco mais de nada, mas já ali entroncavam as Linhas do Norte e da Beira Alta.

Depois terão chegado as oficinas. Compreende-se: estamos no centro do País. Num ponto nevrálgico, também, para que a tropa (os militares dos Abastecimentos) aquartelasse no Entroncamento, atraindo mais gente ainda. Mas raro será o nativo que não descenda de um ferroviário. Enfim, dificilmente se arranjaria melhor ambiente para ajuntar relíquias e abrir as portas do grande museu nacional dos comboios. Equidistante. Donde, há tantos anos o meu propósito de o visitar. E chegara agora o grande dia, pelo braço do meu velho amigo MC (a quem gratíssimo estou), e pelas suas recomendações, - apanhei o Intercidades e desembarquei na infinitude dos carris de marcha, manobras, arrumos, entre edifícios sucessivos e um imobilizado activo móbil... Ao coração do Portugal comboniano (Deus me perdoe), com destinos, composições e finalidades misteriosas. Momentos agitados. Dirigi-me ao hotel, do outro lado da praça da estação, descarreguei a trouxa e fui tratar das minhas prioridades: a visita ao museu.

É uma coisa enorme, em volta de alguns recomendados pavilhões. Sempre gostei de comboios, neto de um engenheiro da CP, meu querido padrinho. E no Entroncamento matei saudades revendo a Andorinha, a nossa actual mais antiga locomotiva,

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de sempre guardada no Minho e supostamente para ali levada para restauro. (Quero crer ela regressa a Famalicão, tanto quanto não me apetece uma reedição da Maria da Fonte...) Mas outras peças me chamavam, desde a monumental locomotiva que cursava entre Lisboa e o Porto

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rebocando confortáveis comboios da era pré-via electrificada até às pesadas diesel que se finaram em leitos siderúrgicos do Barreiro.

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E depois as minorcas silvando no Douro ou no Minho...

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Ou as pioneiras do andamento sem fumarada...

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Ou, enfim, o Comboio Real!...

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Cá fora, veículos impacientes e doridos. (A bem dizer os que mais me chamaram a atenção.) Esperando o quê? - o corredor da morte, ou a salvação? Terrível purgatório!

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E porque o Entroncamento é mais, e o museu há de ter direito a revisita, avancei cidade adentro. Sem que ouvisse tiroteios mas ciente de que chegara a algum farwest em território português.

Junto à linha o bairro dos ferroviários, em abandono quase total.

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Depois o casario de antanho

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e alguns edifícios civilizados (idosos), a caminhos dos cem.

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Pequeninas construções sobreviventes

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e a larguesa dos arruamentos estilo "Moscavide"...

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Também a mignone "Zona Verde"

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destes dias de aqui, práticos e funcionais, onde os reformados passeiam o cão. Assim é o Entroncamento, mais os cogumelos diariamente despontando, nascido das ervas e esperando, como todos, um amanhã mais enraizado na arquitectura a quem o tempo tudo perdoa.

 

"A minha ribeira"

João-Afonso Machado, 05.02.24

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Partirei outra vez a redescobrir minha ribeira

de areão e limpidez

cantando entre uma e outra leira,

 

manhã de algum dia

partirei outra vez.

 

Choupos e salgueiros, ramaria

do tempo hirto em cepos nas águas,

ribeira esquecida

onde fundei tantas mágoas.

Em verde corrida

 

partirei outra vez

entre uma e outra leira

até ao areão e limpidez da minha ribeira.