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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

"O dia calado das glicíneas" (bis)

João-Afonso Machado, 29.03.24

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Nada dirão hoje silenciosas

ante olhos em cantochão

cobiçando suas campainhas

 

nas longas vestes majestosas

dos seus lilases de rainhas.

 

E aos molhos despertarão

amanhãs e as gentes

as glicínias esparsas no chão

como sinos frementes, arremetidas

ígneas cores ecos, afinal flores

 

de vozes acreditando perdidas

no novo rei dos seus amores.

 

Breve passagem por Nantes

João-Afonso Machado, 26.03.24

A manhã começou em tremenda baralhação entre a reserva do hotel e os movimentos do cartão de crédito que culminaram em nada, senão uma jura minha em manter revigorada a guerra total às "apps". Já no aeroporto, tal a exaltação, fiz o meu testamento no bloco-notas que acompanharia o que eu fui, tudo a entregar aos meus filhos.

Embarquei e escrevi durante o voo um compacto manifesto contra a Net. Foi uma viagem assim rápida, com um autocarro directo prontamente a deixar-nos junto à gare ferroviária de Nantes. Mochila calçada, a saca da máquina fotográfica também, parti cidade adiante sem saber para onde nem o lugar da dormida.

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Havia um rio, um cais, um molho de embarcações. Perguntei quem era e um nativo apressado informou-me ser o Erdre. E com o Erdre teve início a minha pacificação.

Há Erdre na extremidade da cidade, que o condenou às ratazanas dos subterrâneos até às proximidades do Loire, seu suserano. Era aqui que eu estava, agora deliciado com o esconde-esconde de um mergulhão (de-bico-grosso), santa ave a lavar-me a cabeça de todas as maçadas.

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Regorgitava a gente passante, e quase tantas bicicletas, nas planuras de Nantes rentes à Gare. Ali pelo cais e as embarcações, o mergulhão e as águas quedas onde os computadores escorregando, caindo e submergindo, se transformam em meros aquários... O tempo em Nantes dispensava o blusão e um nico à frente dei com o primeiro hotel.

Entrei. Receberam-me duas bonitas e simpáticas francesinhas. Havia quarto, sim senhor!!! E, comedidamente roubado, assegurei a minha estadia por uma noite. Agora era aproveitar, com todas as cautelas para não levar em cima com a silenciosa frequência dos tramways.

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O Chateau du Duc de Bretagne ficava nas imediações. Imponente, todo ele cercado por um fosso sólido e liquido,

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a ponte levadiça anunciando uma exposição memorial e não sei quantas coisas mais.

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O Chateau é hoje um museu importante e a Senhora Duquesa, numa janela cimeira, olhava de soslaio o burgo enquanto cosia meias e outras sumptuosidades.

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Cá em baixo vivia-se. Bebi tranquilamente uma cerveja em quietude de esplanada. Defronte, um rapaz da minha geração e a sua guitarra ganharam uma moeda e o melhor com que os podia medalhar - Eric Clapton, assim o intitulei.

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(Tocava com excelência, o artista, e meneando a cabeça felicíssimo refinou então nos acordes.)

No fosso, as pessoas e os cães passeavam à borda de água e gozavam o solzinho. Nantes calara-se completamente, decerto paralisada pelo amigo Clapton e pela tranquilidade do lugar.

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No oposto, já não tanto assim. O tramway surgia inopinadamente, como um torpedo, perigosa surpresa. O espelho aquático do jardim atraía gente para os bancos vizinhos.

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Quis saber o nome deste outro mais agitado recanto, mas a jovem indígena, decerto assentada sobre o seu dia de trabalho, respondeu-me «je ne sais pas»; e depois, muito marota, alvitrou com um sorriso: «le Jardin du Chateau, non?». - Mais oui, surement, le Jardin du Chateau - anuí enquanto ia embora, já sem idade para certas coisas...

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Rumei à Cathédral de Saint Pierre et Saint Paul. Esguia, fechada porque em obras, os seus pináculos espetados no rabo do céu. E só fotografável do meio da Rue General Leclerc de Hauteclocque, mesmo em cima do risco contínuo, com a divertida complacência dos automobilistas.

Vadiei. Conheci as monumentais Place du Buffait,

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Place du Commèrce,

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Place Royal.

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Em todas elas o formigar dos passantes e a multiplicidade de etnias e bizarrias. Somos cada vez mais da era dos paradoxos, ocorreu-me, ao topar tantos sem meias e de calças pela barriga das pernas, mas embrulhados em espessos sobretudos. Estreitas e arrumadíssimas ruas entrecruzavam a teia citadina. As montras típicas das boulangeries et patisseries

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a descoberta de livrarias e antiquários em que as minhas horas haviam de sofrer circulando ao largo. Estava já anoitecendo...

Dormi tranquilamente. E antes do comboio matinal para Rennes, a escolta feita ao Erdre até à sua foz no grande Loire, o maior rio francês.

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Diante mim a ilha de Nantes (porque o Loire se desdobra em dois braços unificados a jusante). No percurso alguns repentes de modernidade,

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também, quem sabe?, para explorar um dia. É que o mundo vai-se tornando maior do que o tempo...

 

No topo da cidade

João-Afonso Machado, 23.03.24

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Por cá, também não faltam os altos e baixos. E o tempo mais as suas mossas... E os desvarios mundo fora, mais o regresso. Entretanto, os lugares esquecidos, antes habitados. A ideia distante das lavouras, dos bois e de alguns poisos de recreio dos lavradores. Imagens já se diluindo entre a vozearia...

Mas tudo permanecia nos vagos intervalos desse minúsculo momento que é a vida enquanto lá foi. No regresso à terra, consistiu num pequeno apartamento em urbanização de primeiro porte, com arvoredo, um parque todo e a ribeira povoada de fauna, um lugar à margem, fugaz lembrança das lavouras, ainda o paraíso dos cães... Pouco falta para dizer - caçava-se... O apartamento falava todas as línguas - o cacarejar das criancinhas na creche (de manhã, no recreio sob a janela do quarto único), até às tardes ensolaradas escritas na mesa redonda, vagarosas, com vista para as hortas do vizinho do rés-o-chão.

(O homem, cavava, cavava, a tomar posse do pequeno baldio. Eregia hortas. Mas as horas corriam sossegadas, não fosse a exiguidade do espaço jamais caladas.)

Passaram os anos. Com «os bigodes da alma a encanecerem-se» (assim escrevia Camilo em carta a um amigo). Ir lá acima foi quase uma peregrinação. O Sr. Fernando abriu os braços e disse já não cozinhava omoletas (mistas de fiambre e queijo, com batatas fritas, uma delícia). Mas, dadas as circunstâncias, ele também abriria uma excepção regada com o seu magnífico verde branco. Que reencontro! - Ó Sr. Dr., ó Sr. Dr.!... - Gente boa é outra gente!

Ali, no outrora chamado Largo da Cruz Velha, junto a um edifício que só preserva as suas pedras nas memórias mais rijas, em rua onde Famalicão já se despedia a caminho do Litoral. Mas a vila prosseguiu-se no casario e desse marco fronteiro restou uma fachada rasa que guarda ainda alguns azulejos, uma história ainda para ser. E por trás dela o prédio, o andarzinho, o quarto, cozinha e sala, tanta escrita; mais o ganir dos canitos, a horta do vizinho, quiçá uma sua estufa, hoje um negócio formidável com os hipermercados...

 

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