"O que faz falta é animar a malta"....

O Severino é amarantino. De gema. Apenas veio para o Porto a deixar para trás as nada prósperas leiras dos seus avós. Empregou-se numa repartição pública, coisa pouca, de horário rígido sem contemplações suas, e o tempo bastante para o comboio do fim de semana. Até à sua Amarante, de onde Severino tornava ao desterro carregado de hortaliças e enchidos.
Além disso, o Severino, solteiro mas já em idade casadoira, não perdia o seu S. Gonçalinho mais a esperança em moçoila fértil, boa esposa.
O anunciado fim da Linha do Tâmega - longo nome do comboio de Severino (- É prá'marante fax'avor, assim que chegava à bilheteira de S. Bento -) - concorreu para uma complicada teia de autocarros e rodovias de ida e volta à sua Amarante. E o Severino, a piorar a história, enjoa na estrada...
Severino não se conforma. É inscrito no sindicato, conquanto já não se lembre de pagar quotas.
Soube, de caminho, do desfile do 1º de Maio. O Severino não gosta de multidões... Todavia compareceu, desceu os Aliados. Posto atrás de uma tarja, tropeçando nela, sentido havia de berrar também pela volta do seu comboio. Saudoso das couves e chouriços que armazenava no seu quarto alugado e sempre arranjava como cozinhar, regalar-se e lamber os restos.
Já não é assim, porém. O Severino morreu, Deus o tenha. Foi mais um, nessa manhã não acordada, sem que a multidão citadina desse conta da fatalidade. Piedosos familiares trataram da sua leva para o jazigo, pródigo monumento onde foi inumado o avô. Mas, entretanto, a Linha do Tâmega não ressuscitou. Somente os anos foram trotando até tudo no mesmo.