Cores da Ericeira
Escrevo um adeus rápido à vila onde agora, em Agosto, se confinarão uns três quartos da população mundial. - Boas férias Ericeira! - não resiste alguma ironia que anda dentro de mim. E porque decorrerão uns meses, folheio o meu album de fotografias, confesso com nostálgia bastante. Mesmo pela praia do Sul, a sua escassez de areia, o velho rejuvenescido hotel, verdejando enorme, as Furnas onde o mar se espuma e eu pesquei a minha primeira taínha aos 11 anos.

E o Parque de Santa Marta e 1972 e Don McLean à noite, so bye bye miss american pie. Vamos no carreirinho a par da amurada à fisgada nas tonalidades da memória.

Algo ficou jazendo aqui e ali, ignorado, baço e de cores sepultas como os fantasmas de dia. Não certamente a praia dos Pescadores, actualmente muito de banhos e ondulando entre azuis e verdes mais o enegrecido nos fundos rochosos.

Também a capelinha de Santo António conserva a claridade que é a anfitreã dos dias bons

e exibe a cuidada azuleijaria do seu interior,

as dolorosas e eternizadas visões da Família Real embarcando para o exílio. Um momento cru e mudo como uma adaga a rasgar a inocente Ericeira, libertando-a enfim no Largo do Pelourinho ainda dormindo e sonhando a sua antiga dignidade concelhia.

Pelas redondezas, a Barbearia Neves pintada como a pátria bandeira. Nesses meus 11 anos, o estabelecimento do Sr. Calé, o meu baptismo na "máquina zero", uma praxe do Tio H.

(E careca, queimado como um tição, a chegar depois a Pedras Rubras num Caravelle, o pobre Pai, aflitíssimo, incapaz de me reconhecer, eu à sua procura por todo o aeroporto, ambos desencontrados...)
Rematámos o exercício no Jogo da Bola. Filosofando com a minha prima IM acerca do remoto consultória do saudoso Dr. Peralta. Em boa verdade, esqueci.

Porque o tombo na bicicleta tinha sido violento, a gravilha do estradão encarregara-se de me desnudar a rótula, espreitei uma vez e não quis espreitar outra, aquilo doía por demais, mas um homem de 12 anos não chora. - Tio, olhe o que fiz... - E o Tio H após um breve relance, - Vá, vamos já ao médico. - Seguiu-se a longa espera, o joelho a arrefecer, o Tio à cabeceira da marquesa onde eu sustentava as forças. Mas saíu, sem se demorar. foi ao Jogo da Bola comprar algo para me entreter - o Diário de Notícias!... Querido Tio H!
(O Dr. Peralta tirou uma colher grande de areia daquele buraco aberto pela gravilha e coseu-o com seis pontos. O Tio H ofereceu-me a mão - Se doer, aperta-a com força! -. Jamais deixou de haver silêncio... Foi uma lição que pratiquei e transmiti aos meus filhos nos percalços da sua meninice... Fiquei de perna hirta, a andar coxinho, nada que ajudasse às pescarias de Setembro. E, à saída, o Tio H deu-me uma palmada nas costas e disse - Portaste-te bem rapaz!)