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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

A Praia da Murtinheira em Quiaios

João-Afonso Machado, 14.09.24

Lembro-a bem, ainda incipiente, há longos anos, uma casita aqui, outra ali, perdidas no sopé da serra da Boa Viagem. Justamente porque uma dessas casitas era propriedade de um casal amigo de uns tios meus, os quais já lá tinham comprado um terreno para construir, apaixonados pela beleza do local e pela mansa vastidão da praia.

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Pensavam os tios... A suposta mansidão findava na borda da água, exactamente, onde surgiam ondas repentinas de bocarra aberta, prontas a embrulhar os banhistas nas suas voltas inclementes. Assim a Murtinheira foi ficando na mesma, de verão em verão até ao esquecimento total e à venda do terreno em que os tios programaram a fiel reconstituição do Éden, com parreiras e tudo.

Muito recentemente atravessei a serra. E num miradouro, frente ao mapa enorme em azulejo, dei com a Murtinheira um nada a sul de Quiaios. Já crescidota, semitapada pelo nevoeiro, enxuta de gente, gesticulando por uma romagem, meia horita de oração e areal. Foi como me fiz aos buracos do caminho e alcancei o omnipresente passadiço de madeira.

Foi logo o instante de ver dispersos, isolados, os corpos mudos tostando em recolhimento e contemplação. Não esquecerei esse que não fotografei da escultural senhora embrenhada na sua leitura e muito desataviada. Imóvel no calor da duna, só me ocorreu - igualzinha às serpentes cheias de cor e encanto que, num fulgurante menear de cabeça, mordem, matam e devoram. Ao que eu quis preservar o meu filho mais novo, rapaz imprudente, logo conduzido para o mais cerrado do nevoeiro, já sobre a areia molhada. Onde o nadador-salvador se protegia entre paraventos e guarda-sóis e alguns pares de pés recebiam os unguentos espumosos das ondas espraiadas.

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Fui contando o tempo para trás. O oceano como se ainda aguardasse um titã a desafiá-lo. Os raios solares como se ausentes, cheios de manha, despejando todos os seus males nas nossas costas. O meu filho atrevendo-se ao semicúpio, eu estoicamente guardando imagens, prescrutando o horizonte perdido, apontando ao cargueiro fantasma que teria zarpado da Figueira da Foz.

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E na extremidade da praia o surfista. Navegando entre cinzentos e traçados brancos. Mas capaz de se equilibrar na prancha em que se demorava sentado à espera da onda eleita.

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Resolvi aproximar-me para um retrato mais em pormenor. Mas fui demasiado lerdo.

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Vinham já de regresso - não um mais dois artistas, o outro guardaram-no as brumas até ao fim... 

 

Com o coração nas mãos em cima do joelho

João-Afonso Machado, 10.09.24

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Meu velho e querido Amigo:

Este postal da Leirosa segue rápido e curto de palavras, muito grande de saudades. Mas como se o carteiro só tivesse de caminhar duas portas entre o remetente e o destinatário num trajecto de meio século. Foi tudo demasiado depressa, a tua partida à frente sem esperares por a gente. E a Leirosa parou, o mar chora ondas infindas sobre o barco do Leal que, aliás, não sai para a pesca porque os tractores avariaram e as redes dormem no areal.

Uma eternidade o mar, tal como tu, o que ficou da Leirosa agora calada e tristonha. Mas fui, o nosso encontro foi lá, comigo a escrever-te lembrando agora que sequer deixaste o teu código postal... Bah! Isto iria sempre um bocado atrasado já, de certa forma.

Dei um grande abraço ao teu irmão, com quem almocei, e tive o gosto de um beijo à Senhora tua Mãe que me reconheceu de pronto.

Assim mais próximos do que distanciados, não precisarás de outras notícias. Estamos em contacto. 

Por isso o enorme abraço que faltou naquele dia. Porque não pude, tolheram-me os meus afazeres e a fraqueza do meu espírito. Assim me perdoes tu, velho Amigo. Esse abraço que é sempre Passado, porque sempre presente, e com as maiores saudades do

João-Afonso

 

O meu mestre Antero do Quental

João-Afonso Machado, 06.09.24

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Imperdoavelmente, meses e anos fui deixando esquecer o Antero. (Ou eu próprio...) O seu pensamento, a minha fidelidade ao Mestre. Santo Antero!  - o pai do português humanismo contemporâneo! Não fora esse almoço em restaurante no largo que tem o seu nome, em Vila do Conde.

Visitei a sua casa - dita museu. Que do grande Antero do Quental nada guarda, porque o grande Antero do Quental nada guardou, posto nada ter. Teve, sim, nesta Vila do Conde palradora de hoje, dez anos de paz corridos entre dunas, areais, o mar e umas visitas a Oliveira Martins, no Porto.

Como um bramir de mar tempestuoso/Que até aos céus arroja os seus cachões,/Através duma luz de exaltações,/Rodeia-me o Universo monstruoso...»)

O homem, enérgico quão frágil, renova-me forças. O que é ter? O que é ser? De desilusão em desilusão, de Nova Iorque a Paris, Antero procurou, procurou, sem alcançar resposta.

Só no meu coração, que sondo e meço,/Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,/Em segredo protesta e afirma o Bem!»)

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A casa do Antero não ostenta quaisquer móveis ou recordações. Aberta ao público é, verdadeiramente, uma galeria de arte. Tal qual Antero é, "somente", o seu pensamento e a sua poesia. E alguns seus seguidores, a gente que não se ficou pelas notícias dos jornais, crentes no Além... Estou aí.

Eu sou o teu filho! A um filho desgraçado/Que há-de um pai recusar? Oh, dá-me ânimo/Estende-me tua mão por sobre o abismo!»)

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Vila do Conde, nos seus interstícios, é a minha Vila do Conde. O abraço a Antero. Não é o tempo balnear, é a Alma. É o Pensamento, o nascente da vida, quiçá o seu poente também.