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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Olhão da Restauração

João-Afonso Machado, 14.10.24

A automotora, em passo desleixado, mesmo trôpego, ofereceu a visão de um pedaço da Ria Formosa e logo após as feíssimas, sujas, costas duns edifícios monstruosos, quando a via férrea se afogou entre dois taludes e um túnel. Ressuscitaria além, conquanto ainda mancando. Estávamos em Olhão.

Mais precisamente em Olhão da Restauração, cognome este com que foi distinguida por El-Rei D. João VI, resultante do valoroso papel combativo das suas populações aquando das Invasões Francesas. E caído abaixo do trem, dei com um largo inexpressivo e desorientado. Ou desarrumado... Foi ainda preciso fazer contas porque o mar algarvio está a sul e esse o desejado sentido, numa hora enganadora em que já o sol baixava sobejamente. A opção mais simples consistiria em descer a longa e comercial Avenida da República, mas mais cativava os apetites do viajante o emaranhado de becos - alguns sem saída - que eram o refugo dos antigos bairros de pescadores. A bem dizer, a Olhão de encher o olho parte da Matriz de Nossa Senhora do Rosário até à Ria.

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E isso foi o resto da tarde, pergunta aqui, pergunta ali,

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assegurando de permeio o alojamento por uma noite. (Ao preço de vinte paus e a felicidade de um quarto com dois beliches inteiramente por minha conta...)

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Por fim, a beira-mar. Escurecia já. A toponímia continuava a não primar pelo bom gosto - Avenida 5 de Outubro - mas a Praça Patrão Joaquim Lopes veio em socorro do principiante, movimentada e com muita oferta de comida e cerveja de pressão. Sobretudo com os dois poderosos edifícios do mercado principal,

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de obrigatória paragem no dia seguinte, no seu horário habitual de atendimento.

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Portanto foi sentar, comer e beber e saborear o cais da Ria Formosa, onde o volteio das embarcações ainda não cessara completamente.

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As vistas eram as mais sugestivas que se possa querer. 

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As aves piavam acamadas num banco de areia ao longe. Gaivotas, corvos-marinhos, pilritos, maçaricos, que outros chamavam ainda? Caiu a noite. A marina estava repleta e à mão de semear.

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Num instante a manhã seguinte ganhou o estatuto de navegante. Não em táxis marítimos

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ou em ferries, tão-pouco entre os magotes de turistas. Nem para a ilha da Culatra, travessia não compatível com os meus fusos horários. Fui na lancha do Sr. Eduardo Gonçalves, passageiro único, após prolongada conversação sobre o preço do frete. Homem simpático e conversador e não guloso em coisa de dinheiros.

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Deixámos para trás o porto em demanda da ilha de Armona, exígua mas residência também de famílias de pescadores e sabe-se lá de quem mais.

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O movimento nas águas era infrene, e a sonda num alerta constante, que a maré ia quase rente ao fundo.

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Passámos o porto de pesca, os apanhadores de ameijoas aproveitavam o seu intervalo,

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e ainda acertei numa garça branca distante, poisada num aparelho de captura de ostras.

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Parámos ao largo de Armona em ameaçadora atitude, a invasão ficará para o ano. Entre adeuses trocados pelos pilotos a cada aproximação das suas naus a motor. As aves estavam no céu enquanto os turistas não descessem em terra. Identicamente para outra maré a incursão nos meandros da Ria...

Olhão da Restauração é sobretudo esta riqueza quase flutuante, aliás visitável no inverno.

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Erguida a sua flâmula, fica a pergunta: e porque não?... Sr. Eduardo Gonçalves, guardei os seus contactos!