O Louriçal
A pacata vilazinha do Louriçal, que já foi concelho depois tragado pelo de Pombal, vive toda à sombra do seu avantajado convento de irmãs Clarissas.

Entre lendas e comprovados factos históricos, são páginas e páginas de curiosas leituras e um ror de intervenientes. Mas tudo talvez em contraposição com a folia de Agosto, em que o Louriçal chama a si todas as atenções das suas famosas festas.
As irmãzinhas não são muitas e vivem em clausura.

Difícil será pôr-lhes os olhos em cima e, no entanto, elas estão lá, refugiadas atrás do gradeamento. São vozes. A sua belíssima igreja barroca e um só, um ancião nela ajoelhado, rezando alto o terço.

Responde-lhe em antífona um conjunto feminino, uns metros acima, no coro à prova de olhares humanos trocados.

O episódio não é comum. Com a maior pureza de sentimentos, hei de confessar o meu sonho antigo de subtraír uma freirinha à severidade monástica, devolver-lhe o sorriso, dar-lhe filhos, as cores da vida, alegrias. Mas os sonhos geralmente só servem para serem sonhados, sobretudo dada a minha exigência de uma alma cristalina e uma carinha laroca...
De modo que não houve tentativas de marinhar paredes. Somente a contemplação desta oração tão vagarosa e gostosamente rezada. Não alcançar tais níveis de espiritualidade não significa não os apreciar, quase os invejar.
De novo cá fora, o Louriçal dormia a sua sesta.

Chamando ao descanso consigo, soerguendo o olho e revelando o aqueduto que abastece o convento

e o diminuto edifício da Misericórdia, ainda um eco da sua prosápia concelhia.

Depois, mesmo antes de tornar à soneca, numa mesura apontou o dedo a uma mercearia, - não ficasse esquecido o seu orgulho-mor, os biscoitos do Louriçal: em forma de "8" e feitio de água, farinha, sal e azeite. Um souvenir de há muitos anos, um vício que esgota sacas; e, decerto, um doce que não é doce, fruto da singeleza das irmãzinhas do convento.