Extractos de um diário de bordo (IV)

O sol nascia quando o navio tomou o ramal marítimo para Messina, mesmo no chuto da bota. Na Sicília de Marlon Brando e de Al Pacino, dos Corleone. Uma boa razão para desistir da quentura da cabine e vir à amurada, a perder a noção dos lugares entre montes e arvoredo e areias, e sentir a aproximação do porto na aglomeração do casario vasto. Sobrelevando-se a igreja do Rei Cristo certo era, entrara-se já na cidade: o ceguinho da viagem impreparada lograra enfim uma referência...

Messina é, no mapa, mais um ponto preenchido das história e da mitologia mediterrânicas e de uma colecção de povos marinheiros, imperialistas à vez. Ainda Cristo vinha muito longe e já os messénios se viam em bolandas bélicas, políticas e mesmo teológicas, centuplicadas pelo frenesim dos tirrenos, adriáticos, jónios... e pelos seus incontáveis deuses dessas eras prenhas de imaginação e terrores.
A sua vida foi sempre agitada. Mesmo agora, no conflito entre o pé manjerico e a mente mangerona, dois galos qual dois capos.

Não obstante, uma cidade inserta no palato mais puro da religiosidade italiana. Cristã, logo à entrada do porto, a subir ao céu em pedra monumental: Madona della Lettera...

E em muito mais, terra adentro. Era tempo de saltar cá fora. De averiguar e de captar emoções, a maior das quais a visão da estátua à Imaculada Conceição (na Piazza Immaculata), a Rainha e Padroeira de Portugal, ali em Messina, tão distante das lusitanas paróquias, dir-se-ia, quase pedindo socorro...

Edificada em 1758 e restaurada no século seguinte. Quase uma interlocutora da Piazza Duomo, onde os passageiros tinham arribado todos. Para gozar a visão da Cattedrale di Santa Maria Assunta?

Talvez. Mas, seguramente, rodeando, babando-se com o "creme nívea" da polizia italiana, um Lamborghini da chefatura, estacionado nas imediações.

No contexto do referido conflito fraticida - o da mente e do pé - o devaneio manteve-se breve. Gabou a elegância da ampla sede da comuna e da praça defronte;

sofreu dúvidas existenciais ante as ruínas da Chiese di San Giacomo, vale dizer, do templo cuja construção foi atribuida ao Apóstolo S. Tiago.

E fo ratando bocadinhos da zona portuária até os pregos pregados no pé começarem a macerá-lo com violência. Mas nunca querendo entrar a cavalo no cenário que se perspectivava.

Tudo já ia ficando visto, de certo modo, nesta urbe onde a Immaculata, Nossa Senhora, estremece ao troar do armamento mafiosi... O mundo é difícil de entender, caso não se queira só passar por ele ao de leve. E Torga, na cabine, o mesmo concluiria, andando, como andava então, pela Itália e por França do pré-guerra mundial...







