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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Extractos de um diário de bordo (IV)

João-Afonso Machado, 14.05.25

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O sol nascia quando o navio tomou o ramal marítimo para Messina, mesmo no chuto da bota. Na Sicília de Marlon Brando e de Al Pacino, dos Corleone. Uma boa razão para desistir da quentura da cabine e vir à amurada, a perder a noção dos lugares entre montes e arvoredo e areias, e sentir a aproximação do porto na aglomeração do casario vasto. Sobrelevando-se a igreja do Rei Cristo certo era, entrara-se já na cidade: o ceguinho da viagem impreparada lograra enfim uma referência...

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Messina é, no mapa, mais um ponto preenchido das história e da mitologia mediterrânicas e de uma colecção de povos marinheiros, imperialistas à vez. Ainda Cristo vinha muito longe e já os messénios se viam em bolandas bélicas, políticas e mesmo teológicas, centuplicadas pelo frenesim dos tirrenos, adriáticos, jónios... e pelos seus incontáveis deuses dessas eras prenhas de imaginação e terrores.

A sua vida foi sempre agitada. Mesmo agora, no conflito entre o pé manjerico e a mente mangerona, dois galos qual dois capos.

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Não obstante, uma cidade inserta no palato mais puro da religiosidade italiana. Cristã, logo à entrada do porto, a subir ao céu em pedra monumental: Madona della Lettera...

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E em muito mais, terra adentro. Era tempo de saltar cá fora. De averiguar e de captar emoções, a maior das quais a visão da estátua à Imaculada Conceição (na Piazza Immaculata), a Rainha e Padroeira de Portugal, ali em Messina, tão distante das lusitanas paróquias, dir-se-ia, quase pedindo socorro...

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Edificada em 1758 e restaurada no século seguinte. Quase uma interlocutora da Piazza Duomo, onde os passageiros tinham arribado todos. Para gozar a visão da Cattedrale di Santa Maria Assunta?

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Talvez. Mas, seguramente, rodeando, babando-se com o "creme nívea" da polizia italiana, um Lamborghini da chefatura, estacionado nas imediações.

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No contexto do referido conflito fraticida - o da mente e do pé - o devaneio manteve-se breve. Gabou a elegância da ampla sede da comuna e da praça defronte;

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sofreu dúvidas existenciais ante as ruínas da Chiese di San Giacomo, vale dizer, do templo cuja construção foi atribuida ao Apóstolo S. Tiago.

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E fo ratando bocadinhos da zona portuária até os pregos pregados no pé começarem a macerá-lo com violência. Mas nunca querendo entrar a cavalo no cenário que se perspectivava.

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Tudo já ia ficando visto, de certo modo, nesta urbe onde a Immaculata, Nossa Senhora, estremece ao troar do armamento mafiosi... O mundo é difícil de entender, caso não se queira só passar por ele ao de leve. E Torga, na cabine, o mesmo concluiria, andando, como andava então, pela Itália e por França do pré-guerra mundial... 

 

Extractos de um diário de bordo (III)

João-Afonso Machado, 09.05.25

Outra noute, a mesma calmia. Horas de sonhos e tempos de tensão, ou efeitos marítimos sobre a mente rasgando águas, sinais de vida a subir à tona...

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A manhã acordou no mar Tirreno, em Civitavecchia, o porto romano. Um composto de Passado e Presente, decerto um Futuro sem limites. A escala oferecia umas horas de estada a aproveitar quanto o pé enfermo deixasse. Desta feita sem transportes públicos à boca do cais, seria só abandonar o navio e andar.

Porque Civitavecchia é diminuta. Está-se na província da Toscânia e a capital italiana oferece-se em viagens que atrairão quem não lhe conhece as basílicas. Mas a mente, que já trespassou Roma, é por esta pequena localidade que anseia calcorrear, ao menos um pedacito.

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Assim andou arruamentos, só os da proximidade do cais. Foi indo, foi vendo... bocados bem construídos, monumentos, mercancias de registo. E fez a sua colecção.

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A porta de Livorno não é sublime mas fixa uma marca. A Catedral de S. Francisco de Assis outra mais dimensionada e sempre humilde, pela simplicidade das suas formas, pela afinidade ao Santo Maior, amigo de todos, irmão da Natureza, dos temidos lobos até.

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O pé dava sinal. A mente absorvera o historial bastante. Os etruscos na marosca haviam debandado e com eles os conflitos e guerras da Antiguidade Clássica. Tudo somado sobrava um memorial a estudar mais ponderadamente; em tempos recentes o da estátua (não vislumbrada) do marinheiro beijoqueiro - un' importazione... 

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É que tudo começou em Time Square, New York, 1945,  finalizada a grande matança mundial:  no auge dos festejos, um arrebatado marujo da Armada norte-americana apoderou-se de uma enfermeira e ferrou-lhe um feroz beijo na boca. O momento foi captado em fotografia publicada na Life e correu o mundo até Marte. Ela - a beijada - chamava-se Edith Shain e morreu aos 91 anos, em 2010, quando ele ainda vivia, no Massachusetts. Combatera desde Pearl Harbour e chamava-se George Mendonsa, filho de pais madeirenses.

Ou não fossemos nós!!!

O retratado Kissing Sailor ficou para a posteridade e alcançou Civitavecchia onde, do seu beijo, esculpiram estátuas diversas que são símbolo da cidade, porquê alguém saberá....

Vinham, fatalmente,  muitas centúrias de trás a assombrar os visitantes.

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Em período renascentista, Michelangelo foi chamado a planificar a cidade. O forte da sua concepção

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foi com o nome do projectista denominado. E a edificação rija como a imensidade do autor. Sejamos honestos, insistamos, Civitavecchia dota-se de muito mais, de tudo o mais onde o pé se recusou ir e a mente desdenhou, porque o taxi não dá oportunidades à máquina fotográfica nem é  barato. 

 

"Mãe"

João-Afonso Machado, 05.05.25

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E cá vou indo minha Mãe

entre antes e agora

 a doer o coração,

a esmoer, querida Mãe

 

que me falta, não vá embora,

fique,  Mãe fique – fique até morrer,

 

que a Mãe é viva

à noite ao menos quando durmo

 

e tanto comungamos

como nos zangamos Mãe,

ditos ríspidos, soturno

sonho que sonhamos também

de chuva e sol,

 

ao acordar… de ninguém.