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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Poleiro de reflexão

João-Afonso Machado, 29.06.25

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Dona Mécia, está visto, não gosta de escadas sem corrimão e de degraus escorregadios. E com Dulce todo o cuidado é pouco nas varandas altas. Assim os sonhos oscilam e derramam telheiros, e as ilusões se esvaem numa diagonal instável e cansada. A granítica muralha é, na realidade, um lugar demasiadamente passageiro, quase abalando a honorabilidade da História. Será esta um frigorífico? Uma fornalha?

Uma ruina? Um projecto?

Em que capítulo da História surgem e figuram Dona Mécia e Dulce? E com ou sem direito a um registo perpétuo?

É que será mesmo de recusar viver enquanto não for dada cabal resposta a tantas interrogações... Ou esperar, como qualquer galináceo empoleirado.

 

"Soneto do aeroporto"

João-Afonso Machado, 26.06.25

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Dor de um dia o mundo girando de volta

Das horas em vil espera paradas,

E a multidão disforme de arrancadas

Sempre incógnita de alvar ciclo, solta.

 

Caras lindas distantes sob escolta,

Gentes de longe vindas deserdadas,

Caras que nos enganam, enganadas,

Terra eterna dita livre – ó revolta!

 

Desses iguais só na diferença!

E vai inchando volumosa no mundo

Deserto de normas que já não pensa.

 

Ergue-se então o avião lançado ao ar,

Logo pairante sem chão, sem um fundo,

Certo sem rota, apenas um voar.

 

 

O Sabugueiro (na Estrela)

João-Afonso Machado, 20.06.25

Tinha onze anos e, com um grupo de igual jaez, acabara de calcorrear a pé doze estafantes quilómetros até à mais alta aldeia de Portugal (a 1.100 metros de altitude) - o Sabugueiro, no concelho de Seia, em plena serra da Estrela.

Nunca esquecerei essa chegada, encachecolada e embarretada, e a sede imensa que matámos no fontenário e bebedouro da aldeia, cercados por uma horda de catraios da postura nossa. Descalços, muitos deles nus da cintura para baixo, possuídos de uma curiosidade amazónica. Era Dezembro, faltariam dois ou três dias para o Natal.

Houve, no nosso grupo, quem, devidamente aprovisionado, logo procedesse a generosa distribuição de tostões e rebuçados. Eu, sem mais comigo, dediquei-lhes o meu primeiro texto impresso - na revista Camping (ainda conservo um exemplar), editada pelos Jesuítas organizadores destas empreitadas. - Fomos à mais alta aldeia de Portugal!  - esse o seu título. Após o que muitas décadas correram.

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O Sabugueiro a que então tornei era outro. Levara em cima com a fúria emigrante e vive agora do turismo e do comércio dos produtos regionais. Foi difícil reencontrar a fonte e o seu largo onde nos dessedentámos aquela primeira vez e descansámos. Há transportes públicos, entretanto...

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A sua antiga pobreza guardá-la-á o humilíssimo cemitério de campas térreas, rasas. (E que destino, que resistência a daquelas crianças tão expostas e tão sós?...)

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Com a Primavera em pleno, a vida assemelhava-se mais alegre nesta minha derradeira incursão...

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E os rebanhos de caprinos e ovinos? Quem ficou, - na transumância permaneceu. O gado e os seus pastores andam ainda nos fundos, menos frios e mais férteis. E somente no Verão hão de subir a serra, viçosa e regada pelas águas do degelo. Tão simples quanto isto, que é já multimilenar.

Assim também invariáveis os canis dos fieis parceiros dos guardiões das cabras e das ovelhas. Uma raça antiga e consagrada, os famosos Serra da Estrela. Outro negócio do Sabugueiro...

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E, por vezes também, outros emigrantes buscados por meio mundo. Ao jeito dos humanos... Simpáticos, pachorrentos, muito faladores. Uns contadores das histórias de lá e inconfessáveis apreciadores de paio e de outras gulodices, enquanto conversávamos esburacando o silêncio dos altos...

 

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