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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

O "Sara", que antes foi o "David Ferrador"

João-Afonso Machado, 06.06.25

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Era o dono da melhor matilha de podengos em Famalicão e arredores. O Sr. David tinha a paixão da caça e ainda matei uns coelhitos com ele, o ferrador cá da terra, frequentemente chamado pelo meu Pai quando algum cavalo se descalçava. Mas o seu ofício tinha instalações na vila, junto do então campo da feira, e casa cheia e uma pipa sempre a espirrar tinto para os que esperavam a vez das suas alimárias. A pinga lembrou o petisco, o balcão foi erguido, a breve trecho a taberna chamava-se restaurante. Dos mais afamados em comida regional. E formavam-se as filas para uns rojões, uma bacalhauzada, no "David Ferrador". Décadas e décadas de filas esfomeadas...

Com o sarrabulho também, com o cozido à portuguesa, o filetezinho de pescada. E os vinhos, extensa variedade deles, sendo sempre da praxe a malga com o verde tinto da casa a dar-lhe cor...

O Sr. David deixou-nos há uns anos, é uma saudade sempre presente. (O que ele não caçará lá em cima, Santo Deus!...) O restaurante chamava-se então "Sara Barracoa", um nome familiar, e, agora, apenas "Sara", a filha do Sr. David que actualmente faz a sua gestão.

Nele sou frequente. Desde logo porque o decor está - e muito bem - nos Anos 60 do seu e meu berço. Depois porque a menina Sameiro me atende com a maior excelência, já conhece as minhas preferências, e os panadinhos da casa, com batata frita às rodelas, são inexcedíveis. E a delícia do pão-de-ló de fabrico próprio! Além do mais, dada a vastidão da sala, o silêncio impera, as pessoas não se acotovelam, a menina Sameiro é de um andar ligeiríssimo e qualquer cliente que entre cria em mim a saborosa lembrança do ranger dos soalhos, a visão da cómoda que estremece e o pequeno busto do Camilo a dizer sim com a cabeça. 

A cavalaria desenfreia-se nas gravuras expostas nas amplas planícies de cal que são as paredes e os seus relevos. A clientela é muito a de sempre. (Acaba de sair, já almoçado, um conhecido advogado da nossa praça.) Chamo a atenção para o verde branco da casa, uma canequinha que são sempre duas. Também a D. Sara já se sentou no seu cantinho, onde fumega um prato de mais explêndida sopa de couve branca. - Bom proveito, minha Senhora! E até amanhã!