Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Hoje plenamente medieval

João-Afonso Machado, 30.07.25

IMG_0154.JPG

Tremelicam as luzinhas à noite e as flores dão cor aos dias. As almas passam, descobrem-se e benzem-se, há-as que se ajoelham. A fortaleza não anda longe mas protege-se da torreira de Julho, curiosa entre as ameias por onde as horas se somem.

Em redor tudo são torres e o mundo medieval polícromo e sem sombra. Mas a ermidazinha resiste, acossam-na rente sucessivas cargas de cavalaria num qualquer anglicismo dito motores; ou no voar silencioso das bruxas em lugares relampejantes de electricidade e de trotinetes também. O Senhor da Agonia perpetua o seu zelo como se o tempo não estivesse cá. 

As fogueiras de outrora apagaram-se, porém. O mundo é de todos. Ou de quase todos...

... Porque o meu é de mais ninguém.

 

Em Coja

João-Afonso Machado, 25.07.25

O ar queimava e as forças eram poucas, a vontade derretia atarantada nesses dois dias em Coja, vila enfaixada entre históricos troços que tanto medalharam o glorioso Rali de Portugal. Na então mundialmente conhecida Arganil, um concelho que se aboletou com o extinto de Coja.

IMG_0212.JPG

A vaga de calor caíra-lhe em cima, pois, na ocasião da Festa do Coscorel. A gente está sempre a aprender... O coscorel é a especialidade da terra, um doce feito de massa de farinha e ovos, fermento, aguardente e açucar, levedada e depois frita. Comer o coscorel faz muito bem à cultura geral e foi um entretém durante as horas em que se desenrolavam os preparativos do espectáculo nocturno, camuflados entre as margens e ramagens de uma ribeira que sempra abonava um simulacro de frescura. Por toda a parte, a inesperada presença de ingleses, holandeses e alemães, dos mais velhos (chegados directamente do Woodstock) às criancinhas nadas já em território luso.

São bastantes estas comunidades estabelecidas na região, vivendo ainda sob os sagrados princípios da comunhão hippie. (A idosa coberta de cima a baixo por uma túnica branca, a cabeça protegida por um chapéu de abas circumplanetárias, ouve no altifalante Marvin Gaye; Let's Get It On... E de imediato flana na relva, os braços ondulando sensações e devoções de outrora, já é avó...)

Todas se descalçaram. Apenas se descalçaram, mas muitas ostentam descontraidamente a sua celulite, enquanto outras primam por esguias, loiraças, dançarinas cheias de ritmo.

IMG_0216.JPG

Pintam-se, umas às outras, os corpos com pinceis e cores da liturgia druídica, e dão início a uma primeira actuação, logo após os ensaios da banda saxónica de que são fãs e que tocará à noite.

IMG_0214.JPG

Intervalo nesta cosmopolita Coja do coscorel. A praça principal ainda conserva o antigo pelourinho, num canto, e é amplissima, tomada dos toldos das esplanadas para as quais os cafés abrem goelas de onde caem em cascata canecas e mais canecas de cerveja bendita.

IMG_0221.JPG

No percurso a mansidão do rio Alva, a sua praia a jusante e uma moleza avassaladora obstruindo esse trajecto para a vitamina de um mergulho...

IMG_0223.JPG

Chegou a noite, festivaleira e baforenta do calor acumulado durante o dia. A banda-atracção produzia um som muito à Carlos Santana quando o vocalista nos agraciava com as suas pausas. Agora percebia-se, as comunidades de apoio não constituiam uma multidão eufórica em torno do palco. Eram só uns tantos. E o nacional de Coja, esse preferia ao coscorel as delícias liquidas, fresquíssimas, dos anglo-germânicos malte lúpulo e levedura. Já lá iam muitas horas de espionagem das gentes e da terra, e o dia seguinte prometia mais calor e outras paragens. Chegara, assim, a altura do quarto e do ar condicionado até um próximo inverno qualquer. 

 

A Picha (Pedrógão Grande)

João-Afonso Machado, 19.07.25

Ao longo da EN2 descobrem-se lugares assim, opíparos banquetes para a galhofa dos motards portugueses. Dos nossos motoqueiros, bem vistas as coisas o designativo que melhor lhes assenta. O raid não seria verdadeiramente um raid sem a boquita malandrona e as coisinhas escritas ou coladas nas paredes e nos marcos ou placas.

IMG_0203.JPG

Disso logo se apercebeu o concessionário e proprietário do Café Restaurante da Picha, ao km 310 da nossa mais famosa route.  No Pedrogão  Grande, onde o distrito de Leiria faz um bico entre os de Coimbra e Castelo Branco. (Quim Barreiros bebendo o seu matinal moscatel ao balcão, vindo na excursão que largou cedo do Alto Minho, juraria que congemina poemas fáceis, exitos futuros da sua concertina...)

IMG_0202.JPG

Mais a mais, a povoação ao lado dá pelo nome de Venda da Gaita

IMG_0204.JPG

e as suas gentes hão de ultrapassar em número os escondidos da Picha, que são 50 invisíveis personagens num exíguo aglomerado de casas. Onde andariam eles? Ocultos atrás das moitas? Virados silenciosamente para as paredes? De cócoras?...

IMG_0207.JPG

Consta que eram, ou continuam a ser, um povo de lenhadores. Porque "pichas" se apelidarão os vasos que sustém a escorrência da resina dos pinheiros. Pronuncie-se quem for dotado e vá mais longe em filologia.

Mas a alva capela da Picha é, no presente, assaz utilizada em casamentos, preguiçando ao sol, toda limpinha, entre a celebração de um e a do próximo. Em volta dela, mais do mesmo - sem que se vislumbre vivalma. Lá em baixo, no Café da Picha, os folgazões dão largas à sua boa disposição e atiram abaixo o último caneco. E, saciados enfim, prosseguem troando o seu destino. (Velho Quim Barreiros, se não eras tu era um sósia teu, poeta da mesma igualha...)

 

Pág. 1/3