O ar queimava e as forças eram poucas, a vontade derretia atarantada nesses dois dias em Coja, vila enfaixada entre históricos troços que tanto medalharam o glorioso Rali de Portugal. Na então mundialmente conhecida Arganil, um concelho que se aboletou com o extinto de Coja.
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A vaga de calor caíra-lhe em cima, pois, na ocasião da Festa do Coscorel. A gente está sempre a aprender... O coscorel é a especialidade da terra, um doce feito de massa de farinha e ovos, fermento, aguardente e açucar, levedada e depois frita. Comer o coscorel faz muito bem à cultura geral e foi um entretém durante as horas em que se desenrolavam os preparativos do espectáculo nocturno, camuflados entre as margens e ramagens de uma ribeira que sempra abonava um simulacro de frescura. Por toda a parte, a inesperada presença de ingleses, holandeses e alemães, dos mais velhos (chegados directamente do Woodstock) às criancinhas nadas já em território luso.
São bastantes estas comunidades estabelecidas na região, vivendo ainda sob os sagrados princípios da comunhão hippie. (A idosa coberta de cima a baixo por uma túnica branca, a cabeça protegida por um chapéu de abas circumplanetárias, ouve no altifalante Marvin Gaye; Let's Get It On... E de imediato flana na relva, os braços ondulando sensações e devoções de outrora, já é avó...)
Todas se descalçaram. Apenas se descalçaram, mas muitas ostentam descontraidamente a sua celulite, enquanto outras primam por esguias, loiraças, dançarinas cheias de ritmo.
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Pintam-se, umas às outras, os corpos com pinceis e cores da liturgia druídica, e dão início a uma primeira actuação, logo após os ensaios da banda saxónica de que são fãs e que tocará à noite.
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Intervalo nesta cosmopolita Coja do coscorel. A praça principal ainda conserva o antigo pelourinho, num canto, e é amplissima, tomada dos toldos das esplanadas para as quais os cafés abrem goelas de onde caem em cascata canecas e mais canecas de cerveja bendita.
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No percurso a mansidão do rio Alva, a sua praia a jusante e uma moleza avassaladora obstruindo esse trajecto para a vitamina de um mergulho...
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Chegou a noite, festivaleira e baforenta do calor acumulado durante o dia. A banda-atracção produzia um som muito à Carlos Santana quando o vocalista nos agraciava com as suas pausas. Agora percebia-se, as comunidades de apoio não constituiam uma multidão eufórica em torno do palco. Eram só uns tantos. E o nacional de Coja, esse preferia ao coscorel as delícias liquidas, fresquíssimas, dos anglo-germânicos malte lúpulo e levedura. Já lá iam muitas horas de espionagem das gentes e da terra, e o dia seguinte prometia mais calor e outras paragens. Chegara, assim, a altura do quarto e do ar condicionado até um próximo inverno qualquer.