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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Na agosteira agonia

João-Afonso Machado, 31.08.25

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Dois senhores minhotos, dos poucos que restam como os de outros tempos, em volta das suas canecas de cerveja na esplanada da Brasileira, dão-se conta da invasão: Braga, a capital do seu distrito, foi definitivamente conquistada pelos exércitos galegos e os seus aliados luso-franceses.

(Ruben A. ironizava com «as pastelarias das praças da república de todas as vilas do norte». É. E reconhecia também - «O homem-massa transformar-se-á num novo espectáculo de jardim zoológico»...)

A simpatia da jovem que servia às mesas ia muito para além do normal. Promissoramente bonita, logo lhe recomendaram um lugar no cortejo das Festas da Agonia, na Viana da Foz do Lima. Sorriu e agradeceu. Aquela «praça da república» sobrelotava-se para uma noite de «jardim zoológico» fatalmente prolongada. O invasor controlava o burgo artéria por artéria. Instalou forte dispositivo ofensivo no Largo Carlos Amarante. Está na expressão colectiva, Braga é deles, Braga que se prepare para o saque.

S. Marcos, resignado, caminha já no suplício, flagelam-no brincadeirinhas de esquisitos idiomas, traquinices luso-francesas, - as piores - perrices e infindos telemóveis apontados ao seu habitual recato. Mortificam-no centenares de corpos mais nus do que calçados, piercings e tatoos sintomáticos das hordas pagãs.

Agosto é entrementes moribundo. A ventoínha dá-lhe algum conforto, porém, já não arde em febre. E dois senhores minhotos, dos pouquissímos que restam, dando o último gole de cerveja, comentam com um certo alívio - Vai morrer, não passa desta noite... - E, obervando os esquadrões inimigos, logo acrescentam - Mas as exéquias serão longas...

 

Sem gente... sem nome

João-Afonso Machado, 27.08.25

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Agosto arde devagar e os operários não comparecem. A vila desespera, o patrão da residêncial pede mil perdões, obras malditas!

Parece que se trata do saneamento público. Ruas intransitáveis e o mundialmente mais triste chinês, na quina da praça, sentado à porta sem vislumbre de clientela. A ver acumular o pó sobre as suas imprestabilidades.

A propriedade horizontal ainda não chegou cá e o povo já foi embora. De férias, as casas são arrendadas a quem trabalha nas redondezas, o mais conta-se em abóboras e milho alvo e nem um cachorro a latir aos portões...

Resta o edifício enorme e restaurado, rosáceo de dez portadas altas. Uma antiga loja de ferragens à espera de ser museu, de quê logo se verá.

(O café mais compostinho esta noite de futebol na televisão. E o milagrado barbeiro, todas as manhãs o septuagenário a brandir as tesouras podando cabeças que nem lhes ocorre haja, um dia, necessidade de encontrar o seu sucessor...) 

 

Foi assim mesmo

João-Afonso Machado, 23.08.25

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O convite foi quase uma imposição, a exigência de um preito de vassalagem. Mas correspondido num ímpeto curioso de saber das pessoas e dos lugares, tudo nomes cuja lenda atravessava distritos inteiros viajando com charlateiras de general mirando do cimo dos seus torreões palacianos.

O grupo compareceu, pois. Venceu todos os contornos de um portão verde, férreo de um ferreiro decerto famoso. E a seguir os jardins, como se pioneiros no Eden, ao som dos bandos de pombinhas, tantas que só podiam navegar por ali os casais completos da Arca de Noé. O Criador, todavia, subira já aos Céus e toda a autoridade em terra mantinha-a o pulso da nonagenária que por cá ficara, a sua viúva.

Alimentava-se do orgulho na obra que fora a vida vivida em comum. Gozava o seu fausto, o quarto amplo de paredes em madeira, um filme de fotografias de família espalhadas por todo ele. Tinha-se sido recebido nos aposentos da Senhora, fisicamente já debilitada, intelectualmente activíssima a tarde inteira.

Houve chá e bolachinhas de manteiga, criadas fardadas a rigor para servir. A Rainha, mãe de muitas mães, e avô de um número incontável de netos, acolhia com amabilidade mas sempre investida nos seus poderes, incluindo o de medalhar crianças com bombons. No hotel que fora o sonho realizado com o seu marido.

E essa apresentação, quem diria?, valeria também como a despedida final. Porque a Senhora iria ter com ele um mês volvido. E não voltaram ambos, vai lá um quarto de século já.

 

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