![IMG_0417.JPG]()
Os anos multiplicam-se e o Bairro de S. Miguel é já só uma lembrança nublada dos domingos nas freirinhas, de porta fechada ao mundo desde o covid. Igualzinhas aos pânicos sanitários da minha amiga loiraça, de si o maior despacho mundial antes do medo universal. Ora eu vinha do Sul, aguentando ainda a minha mochila às costas, e a saída do comboio em Entrecampos foi um descanso. Saltei fora com fome e sede e a masoquista vontade de comparar o passado e o presente. Foi por isso que ziguezagueei no Bairro de S. Miguel, confesso, - em romagem às freirinhas também. Eis senão quando, à esquina, oiço pulseiras tilintando. Helàs! Lisboa, afinal, é S. Tiago da Cruz, onde vai frutificando a Casa dos meus maiores. Pois claro - era ela! Toda mini-saia da mais audaz.
O inevitável esbarranço, o calejado abraço (e o seu beijinho muito de raspão, mesmo para dissolver intuitos) foi consequente. Houve protocolares palavras e a fenomenal novidade: vivia agora no Bairro, em andar desapertado que uma tia velhinha lhe deixara em testamento.
(Sempre invejei, confesso, esta gente em que afunilam heranças após heranças e vivem delas, explicando ao mundo que é preciso trabalhar para lograr dias melhores...)
Pois era um segundo andar avarandado, um implante na cidade estapafúrdia, um oásis. E tal era o entusiasmo, convidou-me a subir e a tomar um drink no seu palácio. Acedi gostosamente, como se calculará.
A tarde findava. O branco alentejano cheirava a gelo e os pistachios, numa malga tremenda, puxavam por ele. Até onde iríamos? - pensava eu, quando me apercebi da tropa de rapazolas cá em baixo, de mira apontada às cuequinhas da minha amiga.
- Eh malta, o que é isto?! - troei.
E ela percebeu. Empurrou-me porta fora - adeus, adeus... - quase me impelindo e precipitando escadas abaixo, e fechou-se em casa sem mais palavra alguma.
Agora, na rua, dispersados os mirones, noto as persianas corridas e anoto o seu pavor. O que dirá o Bairro de S. Miguel amanhã? E as freirinhas, caso tenham abandonado a clausura? Segreda-me a consciência, o pároco de S. Tiago da Cruz mandava-me à merda se lhe manifestasse qualquer arrependimento por este meio copo e uns pistachios mastigados já no escadório... Lá na freguesia um cavalheiro visitar uma senhora já não é tema...