Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Com um sikh ao volante

João-Afonso Machado, 28.09.25

SIHK - UBER.JPG

Simpatizo com esta gente que dobrou o Cabo das Tormentas em contramão. Quanto sei - e acredito - é crença sua a prática do trabalho honesto. Sejam por isso bem vindos, eles e a sua lição.

E o turbante dos sikhs britaniza-nos, afasta esta nossa bronca bronquite asmática de tão encerrados no nosso próprio bafio. Recorda até os caminhos que o Mahatma predestinou, os quais na altura devida ignorámos, com todas as consequentes vergonhas, prejuízos e sangue desperdiçado.

Eles estão cá como por toda a parte. Nunca se despojando do turbante, conforme o cristão nunca abandona a sua cruz. E sempre pausadamente, nem que ao volante de um uber. Com a sua expressão divertida quando o turista parolo - que afinal somos nós - lhes pede um retrato à despedida. Pois se repita a história (em contramão), e o Cabo das Tormentas se rebaptize Cabo da Boa Esperança!

 

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 24.09.25

IMG_0417.JPG

Os anos multiplicam-se e o Bairro de S. Miguel é já só uma lembrança nublada dos domingos nas freirinhas, de porta fechada ao mundo desde o covid. Igualzinhas aos pânicos sanitários da minha amiga loiraça, de si o maior despacho mundial antes do medo universal. Ora eu vinha do Sul, aguentando ainda a minha mochila às costas, e a saída do comboio em Entrecampos foi um descanso. Saltei fora com fome e sede e a masoquista vontade de comparar o passado e o presente. Foi por isso que ziguezagueei no Bairro de S. Miguel, confesso, - em romagem às freirinhas também. Eis senão quando, à esquina, oiço pulseiras tilintando. Helàs! Lisboa, afinal, é S. Tiago da Cruz, onde vai frutificando a Casa dos meus maiores. Pois claro - era ela! Toda mini-saia da mais audaz.

O inevitável esbarranço, o calejado abraço (e o seu beijinho muito de raspão, mesmo para dissolver intuitos) foi consequente. Houve protocolares palavras e a fenomenal novidade: vivia agora no Bairro, em andar desapertado que uma tia velhinha lhe deixara em testamento.

(Sempre invejei, confesso, esta gente em que afunilam heranças após heranças e vivem delas, explicando ao mundo que é preciso trabalhar para lograr dias melhores...)

Pois era um segundo andar avarandado, um implante na cidade estapafúrdia, um oásis. E tal era o entusiasmo, convidou-me a subir e a tomar um drink no seu palácio. Acedi gostosamente, como se calculará.

A tarde findava. O branco alentejano cheirava a gelo e os pistachios, numa malga tremenda, puxavam por ele. Até onde iríamos? - pensava eu, quando me apercebi da tropa de rapazolas cá em baixo, de mira apontada às cuequinhas da minha amiga.

- Eh malta, o que é isto?! - troei.

E ela percebeu. Empurrou-me porta fora - adeus, adeus... - quase me impelindo e precipitando escadas abaixo, e fechou-se em casa sem mais palavra alguma.

Agora, na rua, dispersados os mirones, noto as persianas corridas e anoto o seu pavor. O que dirá o Bairro de S. Miguel amanhã? E as freirinhas, caso tenham abandonado a clausura? Segreda-me a consciência, o pároco de S. Tiago da Cruz mandava-me à merda se lhe manifestasse qualquer arrependimento por este meio copo e uns pistachios mastigados já no escadório... Lá na freguesia um cavalheiro visitar uma senhora já não é tema...

 

À procura de há trinta anos

João-Afonso Machado, 19.09.25

000030.JPG

O 207, partindo silenciosamente de Campanhã, atravessa o mundo tripeiro em toda a sua orografia. É uma janela aberta para o tempo ido de tantas lojas que conheci vivas, fornecedoras do dia-a-dia, montras de laranjas e limões, as lampadas para os candeeiros. Agora, fatalmente, lugares de comida e souvenirs cujos ventres maternos, nota-se bem, são de mui longínqua proveniência. Recordo em cada rua uma história, um episódio à esquina, uma patifaria qualquer. Ser novo é ser ágil e inenarravelmente asneirento e inconveniente. O 207 já subiu a Rua do Heroísmo e vai no Prado do Repouso, agora festivaleiro, de churrasqueira à porta, uma coxa de frango no derradeiro adeus aos defuntos. Na banda oposta ainda jaz o prediozito onde vivia o Prof. Rocha, uma existência leccionante e solitária. (Os oitenta anos do Alexandre Herculano, toda a dedicação aos alunos, uma vida, a sua velhice entrevistada e a crónica n'O Tripeiro sobre o aniversário do Liceu, o cartão religiosamente guardado a agradecer a revista oferecida, enaltecendo a elegância da escrita. Decorreram três décadas, o Prof. Rocha dispôs da sua alma, o corpo decerto atravessou a avenida e depositou-se no Prado do Repouso, já dormindo antes da churrascaria chegar...)

Rodrigues de Freitas resiste toda arborizada, em casario fechado e sombrio, enfarruscado mas de pé. Coito de fantasmas da burguesia camiliana que ia à missa a S. Lázaro e se passeava no seu jardim. (À janela, nas minhas pesquisas na Biblioteca, troçava do que tudo dera no antro das mais desgraçadas e desgastadas - ó puritanos pais e mães de famílias tripeirinhas! - das mais vis rameiras da cidade, a tarde toda entre os canteiros floridos à espera de qualquer velhote ainda com folego e alguma carteira...)

Três décadas de personagens desaparecendo todos os dias. As hospedarias das artérias transversais já não vivem da meação das meretrizes ou dos calotes dos viciados na heroína: que rumo terá levado aquela loira macilenta, o seu olhar tão azul e tão fiel ao namorado, dono de não sei quantas doses de haxixe, umas fartas sessões no tribunal sob o meu patrocínio?; serão agora livres ou roídos, serão Céu ou torrões de terra apenas?

Era isso Rodrigues de Freitas - restos de portentados e colarinhos eriçados, marginalidade, quitandas, um quotidiano insistentemente igual.

Mas já não é. Há "alojamentos locais" e suspeitosos planos de modernidade sem graça alguma. Os restos mortais da novelística de Camilo triunfarão sobre a Eternidade. E o 207 chega à Batalha, aliviado - sim - por passar os portões do Prado do Repouso, a desapertar-se dos fumos, estugando o passo... e jamais parando na churrasqueira.

 

Pág. 1/3