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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Fonte e hidrofenómenos de Ançã

João-Afonso Machado, 28.11.25

Terra de água. De fontes, córregos e moinhos. Lá em baixo, no fundo da vila. Ançã, ribeiras que amolecem o calcário e o tornam pedra sua. Única.

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O ano tem muitos dias, é seco e chuvoso, ganha e perde cores. Estamos no Outono e a fonte de Ançã, cheia de força, lança à superfície mais de 20.000 litros de água por minuto. Haverá outra assim fecunda? O não parar da corrente transvia-se por canais diversos. Atapetados de verde cantador e poldras a dançar. Uma sinfonia, dizem-me.

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Um labirinto. Estreitos percursos e pés atentos. Açudes, hidrovias complicadas e o moinho, além do mais, tudo guardado na história. São minusculos os postigos do sobrevivente e os degrauzinhos pertencem aos andarilhos como as condutas à escorrência da água.

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O bosque mais além testemunha, quanta gente, quanto mar doce! Maior sinal de eternidade não existirá...

Ançã é o tempo impossivel de medir e as pessoas que os anos já não quantificam. Tal é o já ido. Mas, de olhar na fonte fértil e furiosa, - tanto por vir ainda!

 

Leitoada em Ançã

João-Afonso Machado, 24.11.25

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Chegados a Ançã, logo inquirimos avidamente onde comer o ansiado leitão. Três esfomeados, eu, o meu filho mais novo e o velho amigo JB, um galaico-francês que deixou Guimarães aos seis anos e agora tem saudades, passa a vida cá.

Pois o leitão perguntado com tanta rapacidade estava apenas n'O Verdadeiro Pingão, poucos minutos adiante, logo no início da estrada para Coimbra, dita a Rua Padre José Fernandes Pata. Foi fácil dar com ele, um avantajado edifício.

Sentámos à vontade, num silêncio muito próprio de um almoço de terça-feira. E assim sentámos, assim chegaram as entradas - mexilhão em molho verde, o bom pão bairradino, patés, chouriço e queijos... Nada de transcendente mas tudo com muito cabimento na nossa terrena vontade de comer. De cada qual foi um pouco. E para beber, sem preciosismos,  escolhemos um jarro (e depois outro) do branco frisante "da casa" - mesmo "da casa", ou melhor, da produção da Quinta do Pingão, vasta em vinhas - todo espevitado em gás, levezinho e bastante adamado.

O leitão esplêndido e muito bem cortado em nacos de generosa carne e tempêro. O molho à altura do acontecimento, não faltando as tradicionais rodelas de laranja e salada de alface, tomate e cebola. Nem as batatas fritas cortadas - foi o único senão - em palitos, quando todos as sonhávamos às rodelas.

Enfim: a sobremesa foi dispensada. Fica a nota de outras proezas do Pingão - a chanfana, o polvo à lagareiro e o bacalhau à "zé do pipo". E uma homenagem ao Sr. Olímpio, o proprietário deste restaurante que em 2026 completará 50 anos (meio século) de leitoadas em Ançã.

 

A maternidade de Minês

João-Afonso Machado, 19.11.25

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Estava-se em 2011 e tinha de ser agora. O Jardel envelhecera muito e a sua descendência tornou-se um imperativo. Foi até necessário auxiliá-lo, firmar-lhe as pernas traseiras, todos entenderão a cena. Enfim, não se negará uma certa promiscuidade neste grande momento da vida amorosa do Jardel, à qual sobreviveu uns meses apenas.

E num instante a ninhada veio ao mundo. (Numa calada noite, eu então mais pelo Porto, telefonaram, parti em corrida...) Eram seis: o Pêro, a Tareja, o Urso, a Duna, o Soeiro e um último, cujo nome não me ocorre e foi cedo para o Ribatejo; nunca mais soube o que fosse dele. Dos restantes o Urso seguiu para a Bairrada, onde viveu, caçou e morreu de longa idade.

Já não assim com os quatro demais que ficaram em casa ou entregues a primos caçadores. E, infelizmente, todos com finais de vida carregados de dramátismo: envenenados, atropelados, esfaqueados à dentada por cães de maior porte...

Mas a ninhada era linda e admiradíssima em geral. E os seus membros denotando todos uma espantosa propensão para as perdizes. Estava-lhes no sangue...

Por seu turno, sendo a sua primeira (e única) criação, revelou-se a Minês uma mãe extraordinária, dava gosto vê-la apaparicar os filhotes. Foram, sem dúvida, umas tantas semanas de intensa felicidade familiar, até ao desmame dos cachorrinhos.

 

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