O longe dos clãs

Levei o carroço, que o comboio não fica à mão e aeroporto não há. Mas a viagem foi longa, obrigando-me à submissão ao aviltante GPS. Creio, sobretudo, andei no tempo e trespassei muros nebulosos onde se confundem gerações e gerações minhotas, transmontanas, beirãs. Acima deles, picos de montanhas que talvez atinjamos um dia à laia de um ponto final de chegada, dando a vez a mais gerações ainda.
Mas não há dia, seja ele solarengo no seu todo, que enxote essas brumas de anos acumulados convergindo para tal momento - ligeiro, emotivo e bem almoçado. O Marão estava no horizonte e o Douro muito por perto. Entre os abraços todos, ninguém reparou em barbas e cabeleiras que enbranqueceram ou vão desaparecendo; as senhoras da idade das nossas mães recebem por cumprimento o beijo de sempre na mão. Fica, por instantes, a sensação de que o tempo ninguém levou.
Vivo só e afastado e, por isso, não frenquentemente vou aos encontros da geração a que pertenço. Mas gosto, também para mim os braços se abrem e a minha cadeira não deixará de ser sempre minha. Apreciei o whippet da casa e o pernil estava uma delícia. Como o branco do Dão a que me fidelizei. Falou-se de perdizes e perdigueiros e do que já nos custam alguns roteiros de antigamente, ou calcorrear o mapa em demanda de poisos de caça.
Coleccionámos parentescos e evocámos avós. Orgulhámo-nos de torreões e do curso dos séculos. Perguntámo-nos, em ansiedade, se a História prosseguirá. Cada um dá-lhe o sentido e a direcção que lhe lhe for possível dar.
Regressei tarde e tranquilo, alheado dos torreões. O meu refúgio será cada vez mais o meu reino, a sete chaves fechado, só meu. Ele e um nome que me está colado e é património inconfiscável. As festanças com esta haverá sempre, algures, e os do costume estarão lá: numa frasezinha - reunidos, os antigos clãs nortenhos.