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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Férias, o cinema

João-Afonso Machado, 28.12.25

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O prometido foi cumprido e, a receber-nos, a cidade cheia de luz, barulhenta, cruzada por um número incontável de eléctricos, campainhando as suas ruas todas. E muito trânsito de automóveis, ena tanto carro!, espadas americanos, limusines, - Pai, olhe um Jaguar! - mas o Pai olhava, sim, o lugar que descobrira para estacionar o VW mesmo em frente ao cinema. Escurecia já.

A escolha fora minha, posto diante dos anúncios do Comércio do Porto, duas páginas a chamar gente a todas as estreias e sucessos daquelas férias de Natal. O King Kong! Jamais no Jardim Zoológico de Lisboa, que visitava amiúde, topara um gorilão assim. Fomos, a Mãe em manifesta contrariedade, aquilo não seria filme para a minha idade...

E estamos agora a entrar naquele cinema que parece um forte militar, altas paredes e gradeados em baixo, entre passadeiras de cor e um corredor circular, o bar, as vitrines, damas e cavalheiros de gabardine entre os braços e chapéu de feltro nos dedos, vagueando por ali. - Não! - determina a Mãe - Chocolates não, que depois vamos jantar a casa dos tios!  - E eu lá me conformei e me enfiei pela porta da plateia, seguindo a lanterna acesa do homenzinho de boné, entre o Pai e a Mãe, a conduzir-nos aos nossos lugares e a receber uma moeda de dez tostões na mão espalmada. - Muito obrigado, Excelência!...

Venha lá então o King Kong, o maior gorila do mundo!

Um foco luminoso atrás, mais alto, matraqueia a bobine da fita. (Isto são coisas que o Pai explicou quando a máquina decerto engasgava, a imagem faiscava e o som ia abaixo.) Uma maçada os documentários e o intervalo, demorado, desgorilado e com os chocolates do bar fora do alcance...

Por fim o filme. A selva, a expedição e a estrela da companhia, sempre de ar aflito, - Oh Mãe, porquê? - E a Mãe sossega-me, - Qual aflita? Ora... - agora bem ciente de que eu vou ter pesadelos engorilados. O King Kong é uma besta descomunal, não há bala (nem de canhão) que o fure, os caçadores vão caindo todos como tordos, caçados pelas suas manápulas, até que o adormecem e acorrentam. No meio disto tudo a rapariga já se passeia por entre os dedos do King Kong, que lhe dá beijinhos, e chora no barco a sua captura, tem pena dele!!!

Só desgraças. Encosto-me à Mãe em busca de algum conforto e o Pai olha-me de esguelha como quem diz - Que é isso, pá?! - Depois é aquela cena muito confusa do monstro negro a partir a cidade toda, só se veem carros a voar e o King Kong a trepar o prédio alto como o céu, sem escorregar, apoiado numa mão apenas porque na outra traz a chata da cachopa. Magra, despenteada, com má cara e... quase sem mamas. E o bicho no cocuruto da torre a dar tapas nos aviões como quem enxota moscas...

Agradeci o fim da fita. Nem me dei ao trabalho de perceber onde se enfiou a escanzelada. Cá fora, o frio da noite e o piscar das luzes de Natal, alguns armazéns ainda abertos. Antes isso. Ao jantar, em casa dos tios, nem se falou do filme, os primos já o tinham visto e o Manel diz-me que às vezes sonha com o King Kong a entrar pela janela do quarto. Espero que isso não me aconteça mas, pelo sim pelo não, hei de perguntar amanhã ao Luís-guarda se sabe de algum King Kong escondido no nosso bosque.

 

Ávila

João-Afonso Machado, 23.12.25

Outra muito fugaz passagem pela história no mundo erguida. Ávila!, de Santa Teresa, doutora da Igreja. Uma vida de dor e meditação, sem calendário, e as nossas vidas em rodopio, impondo minutos no retorno do vagaroso ciclo medieval.

De muito longe, a bordo, a muralha rogando a fotografia impossível. O calado desespero imposto pela disciplina da tropa ordeira... É marchar e ver... enquanto as almas choram à velocidade da máquina. Porque o tempo maldito não deixará mais do que a porta principal da fortaleza

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e um ou outro ângulo, porventura mais expressivo, no desespero de imagens sublimes, cores maiores do que letras, compridas frases gravadas em pedra para sempre superando o pedreiro que as lavrou.

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Todos notarão o desgosto de uma corneta a soar como um chicote. É voltar! - ouve-se a esganiçadela. E obedientemente voltámos, calçadas fora, negros das pisadelas de épocas sucessivas que guardam os seus silêncios e não os revelaram. Viajar em grupo é isto, em contramão com as mordomias dos planos estabelecidos e seguros.

Mas para trás não ficara a erupção da Catedral del Salvador. Niquinhos dela, retratada consoante.

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Um dia Cronos submeter-se-á... Virá a infinitude dos momentos sublimes e todo o gótico aplaudido longamente. Virá a história em palavras vagarosas, tão nossas como castelhanas, ditas mais cantadamente. Ávila pede-nos muito, muito mais, e esse é e seu e o nosso drama.

Aplaca-me a angústia a sede do ayuntamento,  no intervalo de tantos palácios e episódios ocultos de invasões napoleónicas. (Escrevo correndo, como corri em Ávila...)

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Terra pouco dimensionada em área, pouco andada em visitas, terra nostra. Porque não ficar lá, e lá renascer? E enviar cartas ao mundo em letra antiga, pergaminhos em envelope com selo d'El-Rei na plenitude dos correios locais?

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Outra vivência. O mais é redundância. Ou uma cidade que desce o morro, dos mais altos da região, e nos proporciona lazer, livros, fogachos de escrita, a morte das fronteiras porque a Nação vive nas almas...

Restava a doce passagem pela Basílica de S. Vicente.

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Foi como a aspirina. Quase - senão iríamos e não voltaríamos tão cedo. A imagem adoçava a estadia que se impunha. Disse, a mim mesmo, - Ávila, até muito breve!

 

O Pai Natal está em todas

João-Afonso Machado, 20.12.25

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A promessa foi cumprida. Era uma comprida promessa de um serão fora de portas, indo além da fantasmagoria do arvoredo em volta, um passeio quase tão amplo quanto a magnitude da galáxia, e mais iluminado ainda. Simão já o vivia e gozava muito antes desse - É hoje! Vamos lá! - que o fez pinchar ao céu em transe. Iria, enfim, conhecer o mistério nuclear de uma explosão que não seria apenas imaginativa mas imensa, acentuada pela noite fria aquecida no vórtice da cidade em vésperas de Natal.

Chegou à praça central onde parecia concentrar-se a gente inteira da terra, entrevista entre cores tremelicantes. Estavam ali todas as estrelas do firmamento movimentando-se ora compassada, ora imprevistamente. E, em boa verdade, arreceou-se, e recusou, o turbilhão da gigantesca roda giratória... ficando-se pelo carrocel, mais achegado ao mundo, cavalgando renas e trenós e a música toda de uma quadra que no curso do ano preenchia os seus sonhos. Depois foi a uma barraquinha onde a mãe não houve como não lhe oferecer duas rabanadas que uma menina de mini-saia e barrete à Pai Natal lhe depositou nas mãos, embrulhadas num guardanapo. Doces, as rabanadas, apimentadas com um saborzinho a vinho fino como o que ele às vezes surripiava à avó. 

Veio o comboio com a sineta e o - OhOhOh! - próprio do velho barbaças que capitaneia a época, e Simão subiu, ele, a mãe e o pai, o fugaz circo funcionava uns quarteirões adiante. - Cuidado, Simão, não te distraias, não te percas no meio de tanta gente!

Porque Simão, chegado às tílias da Avenida, embasbacara vendo-as pingar leads como lágrimas soltas do céu, estrelas cadentes - quem sabe? Mas um guarda-chuva não seria de menos, agora mesmo uma senhora parecia ter levado com um fogacho na cabeça. Pensando duas vezes, Simão concluiu, porém, o Natal não estava ali para fazer mal a quem quer que fosse...

E quão diferente a quietude da aldeia de janelas cerradas! Simão riu, tentando imaginar o Pai Natal passeando por lá, de casa em casa, distribuindo chocolates à rapaziada. Impossível! Não aldeia, todos sabem,  a sua visita é apenas na noite natalícia, com entrada pela chaminé e só se o sapatinho lá for previamente colocado. 

A noite não parou enquanto o cansaço de Simão não lhe trouxe saudades da sua cama, e das suas conjecturas para daí a poucos dias. Teria o OhOhOh, como ele já tratava o prestável ancião, escutado as suas vontades e entendido bem qual o brinquedo - destes modernos, muito mais novos que o Pai Natal - por si desejado?

- Está na hora, Simão! Já vieste à cidade ver o Natal. Agora é dormir e esperar! - Simão, ainda atarantado, nem pestanejou, de mão dada à mãe. E depois ao seu colo, visto logo ter adormecido no decurso da viagem de carro. E, chegando, sonolento, quase baralhado, teve ainda forças para espreitar a noite, antes de fechar a janela do quarto. Talvez alcançasse dali as luzes que enchiam a cidade, o Pai Natal a embrulhar as prendas pedidas.

A noite, contudo, era toda silêncio e escuridão, durante dois segundos interrompida por uma estrela cadente. Simão insistiu de imediato no seu desejo. E agora sim, tinha a certeza, o moderníssimo brinquedo dos seus anseios seria decifrado pelo Pai Natal e apareceria no seu sapatinho. Faltavam só cinco dias!

 

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