Férias, o cinema

O prometido foi cumprido e, a receber-nos, a cidade cheia de luz, barulhenta, cruzada por um número incontável de eléctricos, campainhando as suas ruas todas. E muito trânsito de automóveis, ena tanto carro!, espadas americanos, limusines, - Pai, olhe um Jaguar! - mas o Pai olhava, sim, o lugar que descobrira para estacionar o VW mesmo em frente ao cinema. Escurecia já.
A escolha fora minha, posto diante dos anúncios do Comércio do Porto, duas páginas a chamar gente a todas as estreias e sucessos daquelas férias de Natal. O King Kong! Jamais no Jardim Zoológico de Lisboa, que visitava amiúde, topara um gorilão assim. Fomos, a Mãe em manifesta contrariedade, aquilo não seria filme para a minha idade...
E estamos agora a entrar naquele cinema que parece um forte militar, altas paredes e gradeados em baixo, entre passadeiras de cor e um corredor circular, o bar, as vitrines, damas e cavalheiros de gabardine entre os braços e chapéu de feltro nos dedos, vagueando por ali. - Não! - determina a Mãe - Chocolates não, que depois vamos jantar a casa dos tios! - E eu lá me conformei e me enfiei pela porta da plateia, seguindo a lanterna acesa do homenzinho de boné, entre o Pai e a Mãe, a conduzir-nos aos nossos lugares e a receber uma moeda de dez tostões na mão espalmada. - Muito obrigado, Excelência!...
Venha lá então o King Kong, o maior gorila do mundo!
Um foco luminoso atrás, mais alto, matraqueia a bobine da fita. (Isto são coisas que o Pai explicou quando a máquina decerto engasgava, a imagem faiscava e o som ia abaixo.) Uma maçada os documentários e o intervalo, demorado, desgorilado e com os chocolates do bar fora do alcance...
Por fim o filme. A selva, a expedição e a estrela da companhia, sempre de ar aflito, - Oh Mãe, porquê? - E a Mãe sossega-me, - Qual aflita? Ora... - agora bem ciente de que eu vou ter pesadelos engorilados. O King Kong é uma besta descomunal, não há bala (nem de canhão) que o fure, os caçadores vão caindo todos como tordos, caçados pelas suas manápulas, até que o adormecem e acorrentam. No meio disto tudo a rapariga já se passeia por entre os dedos do King Kong, que lhe dá beijinhos, e chora no barco a sua captura, tem pena dele!!!
Só desgraças. Encosto-me à Mãe em busca de algum conforto e o Pai olha-me de esguelha como quem diz - Que é isso, pá?! - Depois é aquela cena muito confusa do monstro negro a partir a cidade toda, só se veem carros a voar e o King Kong a trepar o prédio alto como o céu, sem escorregar, apoiado numa mão apenas porque na outra traz a chata da cachopa. Magra, despenteada, com má cara e... quase sem mamas. E o bicho no cocuruto da torre a dar tapas nos aviões como quem enxota moscas...
Agradeci o fim da fita. Nem me dei ao trabalho de perceber onde se enfiou a escanzelada. Cá fora, o frio da noite e o piscar das luzes de Natal, alguns armazéns ainda abertos. Antes isso. Ao jantar, em casa dos tios, nem se falou do filme, os primos já o tinham visto e o Manel diz-me que às vezes sonha com o King Kong a entrar pela janela do quarto. Espero que isso não me aconteça mas, pelo sim pelo não, hei de perguntar amanhã ao Luís-guarda se sabe de algum King Kong escondido no nosso bosque.






