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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Um sapal de Hiroshima

João-Afonso Machado, 28.01.26

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Disse - não! Não, não iria embora por enquanto. Ficaria até ao fim, não falo outra lingua senão a minha e estou velho para aprender outra.

Os amigos ouvem, não contrariando, e recomendam cautelas, toda a felicidade, abrem abraços, despacham-se e vão partindo, deixando o sapal para trás.

Vislumbro carros e adeuses carregados de emoção. E a tristeza de tanta escrita perdida. Eles vão migrar, dizem.

Já ao longe oiço o roncar do bombardeiro mortífero. O sapal treme. Será Londres? Dresden? Hiroshima (- "meu amor")?

Será algo semelhante, exterminador. A minha casa não goza de privilégios. Tombará como as demais. Mas eu fico. Até ao último dia, até à bomba devastadora, eu fico porque quero assistir à hecatombe, quero levar o meu protesto à derradeira instância.

É isso: permanecerei no sapal. Ando a ler Agustina Bessa-Luís e vou no dia «em que a bacante acordou, dia de transferência de valores e de grande desordem emocional, o dia da República» (O Mistério da Légua da Póvoa).

Corresponde. De valores no sapal já nada sei, de desordem emocional talvez. E da República, no sapal, e fora dele, - com certeza, levo a cada hora uma pior surpresa ainda.

(Aí vai mais um ex-residente, o braço fora do vidro da viatura, um acenar seu, - Adeus! - resignadamente, o saber e a coragem de um gesto já eterno.)

 

Lavando as águas

João-Afonso Machado, 23.01.26

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Parece ajoelhada, a chuva. Sobre as pedras da represa, logo de manhãzinha, ajoelhada a chuva lava as águas da ribeira. Fazendo das fraquezas forças, enfrentando o muito uso e a sujidade acumulada na torrente. E a chuva pica a correria das águas, encharca-as, espreme-as e torce-as, estica-lhes o caudal. É então um momento mais acastanhado da terra a desprender-se.

Como a poeira a pousar depois da zaragata apaziguada. As águas revoltas, robustecidas, hão, enfim, de acalmar. Já a chuva terá ido embora na serenidade de uma missão cumprida. Mas enregelada, a pobre chuva, esfregando as mãos insensiveis num avental de nuvens no horizonte, decerto contente, o sol a aliviará das frieiras. E fará a água lavada cintilar de transparência, pacificada e repovoada, outra vez a urbe dos peixitos.

As chuvas regressarão em novo ciclo, porém. Para uma barrela mais. É assim o movimento da vida - com os impertinentes ataques intestinais do bicho humano a conduzi-lo e a esbarrá-lo nas mais imprevisiveis curvas das ribeiras.

 

Os sonhos também acordam

João-Afonso Machado, 18.01.26

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São palavras de uma acabrunhada tarde de invernia. Sem mais para fazer, de «mãos ociosas como peixes/num aquário de melancolia», lembrando O'Neill. E de uma voltinha pós almoço em canídea companhia.

O antigo projecto, a meio do percurso, há muito se afogou em silvados e mato. Com vida ficaram, entre o emaranhado, centenares de coelhos rabinos e tão danosos à disciplina expectável nos perdigueiros. O lugar por isso não se recomenda, nem também pelos indisfarçados marcos de menos edificantes actividades nocturnas.

Havia de ser uma urbanização na colina, cheia de fé no futuro que lhe foi madraço. Da faraónica escadaria para baixo, somente se lavrou a praceta, o dito palco de imoralidades transaccionadas. Em algumas vagas de leituras que às vezes assolam por aí, soltou-se Jorge Luís Borges - «é um império aquela luz que se apaga ou um vagalume?». 

Nas acabrunhadas tardes de invernia minhotas, a interrogação de J. L. Borges é totalmente descabida. Ninguém é perfeito...

 

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