Um sapal de Hiroshima

Disse - não! Não, não iria embora por enquanto. Ficaria até ao fim, não falo outra lingua senão a minha e estou velho para aprender outra.
Os amigos ouvem, não contrariando, e recomendam cautelas, toda a felicidade, abrem abraços, despacham-se e vão partindo, deixando o sapal para trás.
Vislumbro carros e adeuses carregados de emoção. E a tristeza de tanta escrita perdida. Eles vão migrar, dizem.
Já ao longe oiço o roncar do bombardeiro mortífero. O sapal treme. Será Londres? Dresden? Hiroshima (- "meu amor")?
Será algo semelhante, exterminador. A minha casa não goza de privilégios. Tombará como as demais. Mas eu fico. Até ao último dia, até à bomba devastadora, eu fico porque quero assistir à hecatombe, quero levar o meu protesto à derradeira instância.
É isso: permanecerei no sapal. Ando a ler Agustina Bessa-Luís e vou no dia «em que a bacante acordou, dia de transferência de valores e de grande desordem emocional, o dia da República» (O Mistério da Légua da Póvoa).
Corresponde. De valores no sapal já nada sei, de desordem emocional talvez. E da República, no sapal, e fora dele, - com certeza, levo a cada hora uma pior surpresa ainda.
(Aí vai mais um ex-residente, o braço fora do vidro da viatura, um acenar seu, - Adeus! - resignadamente, o saber e a coragem de um gesto já eterno.)

