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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

De costas (marítimas)

João-Afonso Machado, 24.02.26

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O areal é lenha trazida nas correntes do mar e atiradas fora pelas ondas; acumulada por todos os meses em que a limpeza não for uma exigência dos tempos propícios à "praia".

Por ora, são propriedade da curiosidade e da sanha vagabunda de uns tantos. - Que poderemos descobrir de proveitoso entre esta carga que o mar deu à costa? - interrogam-se, ávidos e eufóricos.

E buscam. Plásticos, chapas, quaisquer artefactos e utilidades. Não desprezariam até o macabro encontro com um cadáver, fosse ele de um animal, a vida vive-se na atracção-repulsa da morte. Tudo observo nesse mundo sem vozes, senão as dos penedos doridos e da espuma na areia. E talvez prefira...

... Talvez prefira esta braveza espontânea, a praia por conta de andrajosos, um deserto e a salgadeira ao lado, surpresas todas deprimentes. É menos cansativo, serve o meu apetite de fazer nada e está povoado de gaivotas e gaivinas, de pilritos e até de pombinhas - com direito ao brilharete de, ali, ninguém incomodarem.

 

O ramal ferroviário de Guimarães

João-Afonso Machado, 19.02.26

Seja como for, apetecia, em dia de tempestade, este passo no abrigo do comboio. Com espera e saída em Lousado, as mais amplas vistas para os excessos aquáticos do Pelhe nas lavras marginais.

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O tempo, nestes silêncios de gente, não se impacienta. Passou um suburbano vindo do Porto, um infindável "mercadorias", e a espera prosseguiu, como o tempo, a pendular na gare.

Às tantas o comboio, uma fartura de lugares para tomar assento, espreitando admirados a fúria do Ave. Santo Tirso, a ponte de Caniços, o rio sempre em revolta, quase trepando os salgueiros à sua volta. Ilhas de uma geografia destas semanas, rápidos, águas acastanhadas de tanto escavarem a terra. Vila das Aves, a cidade perdida das indústrias do Passado... Ruínas, fantasmagóricas chaminés... Lordelo, Cuca, Pereirinha, mais do mesmo. As estações já não são as casinhas brancas rodeadas de canteiros e retretes, assim se intitulando nos letreiros das paredes - "retretes". Portuguesas, como fomos. São agora escadas em ziguezague, sobrevoando os carris e abrigos prolongados, vozes de altifalante. (Em Pereirinha descobri uma árvore - uma majestosa e carregada tangerineira.) Vizela depois, com a cidade ao longe; e Nespereira, à sombra de uma fábrica descomunal; um minuto de sossego agrário em Covas e o termo do percurso, Guimarães.

Sem retratos, que as janelas fechadas dos comboios não consentem. Por isso, apenas os que trouxe de uma breve deambulação pelo Berço.

É  a pedra que se impõe e rabia nas ruas estreitas

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ou aponta aos céus, no Senhor dos Passos.

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Parei e almocei. Sozinho, gozando sempre esse silêncio de gente. Depois, novamente o comboio.

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Até casa. Até Famalicão.

 

Em vésperas do genocídio

João-Afonso Machado, 14.02.26

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Todos os dias os vejo fugir das catanas no sapal. Famílias inteiras, já lhes perdi a conta, nesta triste e desesperançada invernia. Por todos os caminhos chega a tremenda novidade da morte assolando o sapal, mais não seja infligida pelo conluio entre a ferocidade da meteorologia e a vontade dos poderosos.

Por ora creio-me em segurança, aqui no meu exíguo posto de observação impossível de detectar à vista desarmada. Raramente saio à luz clara do sapal. E alguém tem de ficar para testemunhar o fim e depois contar como foi. Além daquilo que já é.

Pois o que já é envolve sucessivos bombardeamentos e muito sangue correndo nas ruas que chuvas torrenciais lavam de seguida. Assim tudo parece normal, mesmo porque uma severa censura destaca apenas os que alegremente proclamam a sua partida do sapal.

Ai de mim se "eles" dão comigo. Não creio leve uma catanada mas, de absoluta certeza, da electrocussão não me livrarei.

 

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