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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Café Tino Socorro

João-Afonso Machado, 05.05.24

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Vem de muito longe a sua fama do melhor bacalhau na Província. E em Portugal. E no mundo inteiro. Aqui ao lado, na freguesia de Alvelos, umas das muitas do concelho do Barcelos. Para os interessados, o roteiro não é complicado: basta chegar a Barcelinhos, saír da auto-estrada e perguntar. As famigeradas apps só complicariam alcançar a extensa Rua do Socorro...

Mas quantos menos vierem, melhor...

É, aparentemente, um café. Não mais do que isso, não sentíssemos o calor da fornalha, lá dentro. Oficialmente o Tino serve apenas por encomenda. Mas hão de ser tantas que a dita fornalha não apaga e a casa vive cheia e muito cantante, jamais esvaziando a sala dos repastos. Onde há de tudo, mormente as brigadas policiais, abancadas, descontraídas, palradoras, zelando pelos nossos conhecidos jarros cerâmicos brancos com tarjas azuis. Entre o meio cheio e o vazio... E com tal exemplo, a rapaziada só fica mais à vontade...

Indo ao que importa. O bacalhau faz jus à sua fama. Maldito seria o ardente forno! Assado, assadíssimo, na brasa, com batata cozida e verdura farta. Só o vinho da casa desdiz, chocho, adocicado, desalmado, incapaz de emparceirar com os fulgores do bacalhau.

São estas as dicas. E mais outra: a de evitar as quintas, o sacrossanto dia de feira em Barcelos.. Isto para quem gostar de conversar em voz baixa, ou de filosofar como eu trazia dois temas para um bom e muito esquerdista Amigo, tencionando apontar-lhe a espada ao coração das suas convicções.

De sobremesa? Ainda no rescaldo pascal um pão-de-ló esplêndido. E mais um copo do tal agoniado verde branco por cima.

Estava findo o debate. O bacalhau ali reina, sem dúvida alguma. Mas o dia da real audiência é que deve ser escolhido com cautela. A discreta máquina fotográfica apanhará agentes de segurança em posições menos condignas. Não que isso me importe, vindo por caminhos transvios que eu sei, cá da nossa terra... 

 

"O que faz falta é animar a malta"....

João-Afonso Machado, 01.05.24

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O Severino é amarantino. De gema. Apenas veio para o Porto a deixar para trás as nada prósperas leiras dos seus avós. Empregou-se numa repartição pública, coisa pouca, de horário rígido sem contemplações suas, e o tempo bastante para o comboio do fim de semana. Até à sua Amarante, de onde Severino tornava ao desterro carregado de hortaliças e enchidos.

Além disso, o Severino, solteiro mas já em idade casadoira, não perdia o seu S. Gonçalinho mais a esperança em moçoila fértil, boa esposa.

O anunciado fim da Linha do Tâmega - longo nome do comboio de Severino (- É prá'marante fax'avor, assim que chegava à bilheteira de S. Bento -) - concorreu para uma complicada teia de autocarros e rodovias de ida e volta à sua Amarante. E o Severino, a piorar a história, enjoa na estrada...

Severino não se conforma. É inscrito no sindicato, conquanto já não se lembre de pagar quotas.

Soube, de caminho, do desfile do 1º de Maio. O Severino não gosta de multidões... Todavia compareceu, desceu os Aliados. Posto atrás de uma tarja, tropeçando nela, sentido havia de berrar também pela volta do seu comboio. Saudoso das couves e chouriços que armazenava no seu quarto alugado e sempre arranjava como cozinhar, regalar-se e lamber os restos.

Já não é assim, porém. O Severino morreu, Deus o tenha. Foi mais um, nessa manhã não acordada, sem que a multidão citadina desse conta da fatalidade. Piedosos familiares trataram da sua leva para o jazigo, pródigo monumento onde foi inumado o avô. Mas, entretanto, a Linha do Tâmega não ressuscitou. Somente os anos foram trotando até tudo no mesmo.

 

O fugitivo

João-Afonso Machado, 28.04.24

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Foi um instante: habituado àquele número certo, o cômputo dos subscritores na barra lateral do blog, um número que já era família, matinal "bom-dia!" todos os dias, dei conta de que murchara, empobrecera, tornara-se mais chocho.

Senti ímpetos de o procurar, de o trazer ao painel pela gola do casaco, com promessas amigas à mistura. Era só um "1", uma unidade: mas porquê??? - Se se tinha zangado que se manifestasse e eu não mais passaria sobre o risco contínuo...

Caí em mim, todavia. Esse "1" já ia longe, já devia ter passado o Douro deste impalpável mapa. E o GPS do meu carro uma merda, um mentiroso diplomado. Antes as imemoriais equações do liceu que tanto me deslustravam entre os colegas de Matemática!

Bem vistas as coisas, o (o "1") subscritor somente partira sem deixar aviso na página de necrologia do JN. Foi para outro mundo decerto mais eterno e comunicativo, mais desenhado e menos escrito, sem a minha espingarda a açoitar-lhe os ouvidos, a cadela a lambuzá-lo, longe dos borrões da minha caneta.

Da sua pessoa nunca saberei. Até podia ser uma miúda gira. Ou uma velha rabugenta, uma poetisa de exacerbada e indomesticável sensibilidade. Seja como for, aquele "1" a menos vai muito acima da mais básica contabilidade. E as espessas nuvens do princípio do fim descarregavam agora, sobre a minha cabeça, aterradoras trovoadas que me escangalhavam a agilidade da mão.

Sobreveio a bonança. Esse "1" podia ser uma estrela apagada que a distância ainda revelava luminosa aos nossos olhos. Portanto a escrita prosseguira já a lâmpada se fundira. Nunca sabemos o que vai do lado de lá; e do de cá? - escrevemos por necessidade mental ou para sermos lidos e apreciados pelos outros? «Ser ou não ser - eis a questão»...