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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

De comboio na Bretanha: Rennes, Saint Malo, Brest

João-Afonso Machado, 06.04.24

Tudo é excessivo, sobretudo a aceleração do tempo, sem tempo para outros retratos senão os rabiscados pela lapiseira. Uma aposta, um equilíbrio até, no curso das horas à janela da carruagem. Que a mão tremia, o desenho negava-se a ganhar vida e movimento, infiel até à última tentativa. Esbaforido na gare de Rennes, de court par court, num planeta muito maior do que Santa Apolónia e Campanhã juntos, e o Oriente a fazer força também. Foi por ralos minutos...

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Partiu. Nada coxeante. Atenuava-se o meio urbano, clareava o fim dos túneis, os complexos fabris prontamente se arredaram. Estava aí a França campesina. Os muitos prados, a dispersão das quintas de telhados de ardósia em ângulo agudo, visto a neve dever ser tu-cá-tu-lá com os invernos bretões. E a abundância da chuva, a avaliar pelos cursos de água (o melhor da região), uns sequentes aos outros, vindo todos por cima das margens. Havia lugares pantanosos, prados alagados, bandos de garças brancas, os corvos voando ao longe sobre as sementeiras. Volta e meia, um rio de leito mais amplo, acastanhado de terra ida na correnteza. E navegando em paralelo com o comboio, teso e barbeado como um canal. Não pode subsistir sede na Bretanha e em todos os lugares cheira a peixe, bom peixinho para tirar à cana, não sendo raros os pescadores avistados.

Galopávamos. A amabilidade da paisagem adormeceu-me em sonhos esverdeados pelas galochas, acastanhados pelo boné, frios como o ferro da arma nas mãos; e muito ladrados pela alegre companhia de perdigueiros. O sonho imparável do maná bretão, em penas, em pelo ou escamado. A estadia numa terrinha qualquer, os serões à lareira, soam góticos sinos nos torreões a dar horas - fora, afinal, mais uma aldeia (uma comuna) que ficara para trás muito bem comportada no ambiente em que se integrava. E raramente uma estação, algumas almas a entrarem ou a saírem do comboio. O tempo de uma fotografia testemunhando o paraíso na terra...

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Está por saber porque os portugueses não se tratam assim: deixando o regadio distender-se, demarcando as propriedades com renques de árvores, cedros ou pinheiros mansos, não transformando em lixeiras os pauis sob vegetação impenetrável senão talvez em chatas. Faias, choupos, salgueiros, alguma podridão a asselvajar o outro lado da minha janela. Intermitências de sonolência e olhos vivos e espantados. O comboio foi até Dol de Bretagne, donde um autocarro não demorou a chegar a Saint Malo.

Retomando o passeio, o dia seguinte, na estação desta cidade, deparei com um terminal de quatro linhas apenas e duas gaivotas atrevidas, inventivas e gulosas.

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No caminho de Brest, o quadro ondulava na sua orografia. Cresceu a visão do gado vacum e cavalar e os rebanhos de ovelhas. E dos matagais, a paisagem era mais bravia embora repetisse o pendular surgimento dos povoados e, num deles, mesmo um stand de carros usados onde dormitavam uns Renaults sobreviventes dos Anos 80, amáveis, anciãos, contemplando a via férrea num banco corrido, como outros idosos quaisquer.

De quando em vez, o amarelo espaçado e vasto da tremocilha 

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e o discreto pingar, de longe a longe, das casas das quintas, o almejado refúgio de um dia talvez. Pombos torcazes, bandos deles... Outrossim mais um regato caracolando no fundo, desaparecendo quando os taludes submergiam o comboio, ressurgindo depois. Da Normandia até Brest, na ponta ocidental, foi quase a Bretanha toda, e um vincado anseio de apear do comboio e seguir os trilhos e as margens. On verra quelque jour...

 

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