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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

De Saint Malo para Jersey, by ferry

João-Afonso Machado, 20.04.24

Tudo começou muito mal. À saída do hotel, pelas cinco da manhã, a escuridão era impenetrável. Tropecei, quase fui de nariz ao chão, e o único meio de orientação ao meu dispor eram os faróis dos raros automóveis em trânsito. Em tal breu cósmico, como alcançar o cais e as docas a quase dois quilómetros de distância?

Chamaram-me a atenção as luzes intermitentes de uma ambulância, muito perto, a descer uma rampa... Nessa direcção me desembrulhei: chegara às urgências de um hospital e entrei porta dentro, ainda o paciente se acomodava na maca com rodinhas. Expliquei sucintamente que não era nem mocho nem coruja nem morcego. E que queria não ir às cabeçadas até ao porto de mar, não queria perder o ferry para Jersey. Muito solícita, uma senhora nova, suspeito que médica, foi aos serviços administrativos, pegou no telefone e mandou vir um taxi que prontamente chegou. Agradeci reconhecidíssimo. E fiquei sabendo, em Saint Malo a iluminação pública só se acende quando o dia começa a nascer.

Bem, foi bonito assistir ao seu parto já a bordo. Fazia frio e a embarcação assemelhava-se a uma dessas antigas, subindo e descendo o Mississipi oitocentista. Três pisos, um bar em cada um, uma loja pelo meio, mesas e cadeiras em redor, no deck de cima, e a varanda à retaguarda como o ninho das minhas fotografias.

Logo cacei uma visão global de Intra Muros (assim mesmo chamado), a fortaleza que foi Saint Malo medieval.

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Como também não falhei a parte que me interessou dos muitos ilhéus vizinhos, propriedade francesa,

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um ou outro acastelado, guardando ainda denodados laivos defensivos.

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Não fiz contas aos farois. (Eram muito mais do que os carros no rocambolesco início da jornada...)

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Antes gozei as neblinas do Canal da Mancha, a lenda de que pela primeira vez me abeirava e onde enfim navegava.

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A uma hora de entrarmos em águas territoriais britânicas, porque Jersey é inglesa, a única parcela inglesa que os nazis, dada a sua proximidade à costa francesa, conseguiram ocupar. À medida que a claridade se fazia sentir mais iamos dando conta do movimento nesta autêntica auto-estrada marítima.

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Quantas desgraças ela não terá testemunhado! À sua superfície, nos céus que a cobrem, no que ficou depositado nos seus fundos... O Canal da Mancha foi o inferno dos primeiros actos da tragédia mundial de 1939-45. E percorrê-lo, se não apenas como frivolidade turística, é viajar no tempo, escutar o ruído dos caças, o estrondo dos canhões ou das bombas entre o silêncio dos dias presentes.

Jersey aproximava-se. De um modo entusiasmantemente promissor, de princípio, outra vez sugestivas castelanias

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entre as rochas, e uma expectativa poderosa face ao reclame das suas belezas. Mas o porto revelou-se coisa pouca, desarrumada, um longo tapete de cimento,

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caminhada nada anfitreã até aos aposentos alfandegários onde, ainda por cima, depois de ter apresentado o passaporte, resolveram os policemen implicar com o traveler, a perguntarem-lhe se transportava drugs or tobacco! E o traveler de tal modo se irritou who screamed - I don´t like it! I'm a portuguese Lord! - porque, no caso, gentlemen são todos, não chegava, era pouco. Certo é, a mochila permaneceu incólume, longe das suas manápulas - Sorry, Sir! -. Está bem pá, por esta vez vais perdoado...

Mas caíra uma nódoa no bom pano e tudo se resumiu a correr ruas em Saint Helier, a "capital". Uma complicação! Os de lá aceitam pagamentos em euros mas dão o troco em libras: pois que as metam onde melhor lhes aprouver; e estive até ao fim sem saber se a hora do regresso seria a inglesa ou a francesa... Hei de voltar, sim, a Jersey, mas pilotando um Messerschmitt!

 

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