Em vésperas do genocídio

Todos os dias os vejo fugir das catanas no sapal. Famílias inteiras, já lhes perdi a conta, nesta triste e desesperançada invernia. Por todos os caminhos chega a tremenda novidade da morte assolando o sapal, mais não seja infligida pelo conluio entre a ferocidade da meteorologia e a vontade dos poderosos.
Por ora creio-me em segurança, aqui no meu exíguo posto de observação impossível de detectar à vista desarmada. Raramente saio à luz clara do sapal. E alguém tem de ficar para testemunhar o fim e depois contar como foi. Além daquilo que já é.
Pois o que já é envolve sucessivos bombardeamentos e muito sangue correndo nas ruas que chuvas torrenciais lavam de seguida. Assim tudo parece normal, mesmo porque uma severa censura destaca apenas os que alegremente proclamam a sua partida do sapal.
Ai de mim se "eles" dão comigo. Não creio leve uma catanada mas, de absoluta certeza, da electrocussão não me livrarei.