Famel, a saudade lebreira

Tinham triste fim sempre, esmagados sob uma camioneta, roubados descaradamente, até que não houve mais. Os galgos ficaram na infância entre os maiores desgostos do Pai e os campos de milhã onde corriam num rasto de cobra a escapulir-se. E assim o Passado se guardou fechado à chave.
Talvez Famel tenha olhado para trás e reparado nele, a uma semana de distância das pequenas que, segundo as últimas notícias, estão bem, somente saudosas de um passeio, uns mimos.
Famel decerto sentiu a assobiadela como um piropo, um convite. E veio, de cauda a badalar e um brilho amigo nos olhitos.
As mãos deslizando no seu pelo curto garantiam-no igual, carregado de recordações e de dizeres que Famel ouviu de pálpebras já caídas, a cauda soletrando essas palavras todas que a queriam ali. Deu a sua esticadela de pernas, pinhal adentro, como quem solta uma gargalhada de entusiasmo. Foi como permaneceu o fim de semana todo, sempre de dorso, de focinho, de orelhas dadas. Depois de patas estacadas na distância e no tempo. A gente tem os filhos cá no coração. E, ao lado deles, vontades genuínas de voltar a ontem, mais as de hoje e decerto as de amanhã - prenhes de canídeos insuportáveis, teimosos e trabalhosos, tenebrosamente madrugadores. Mas os que sem dúvida nos entendem melhor. Não é Famel?