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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Fantasmas com todas as letras

João-Afonso Machado, 01.05.23

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Já não faço contas ao tempo ido: foi o meu primeiro processo forense a sério, conquanto a questão versasse somente o apoio abusivo num muro do meu constituinte. Mas tudo se passava nas severas terras da comarca de Alijó, em uma pequena aldeia pendurada sobre o Pinhão. O querido e saudoso parente e Amigo confiou-me o assunto, bem ciente que jogava o seu prestígio e autoridade entre os vizinhos com este novato. Mais a mais, da outra parte era mandatário uma velhíssima raposa (há muito desaparecida) de Favaios, advogado republicano revanchista mortinho por dar com força nos da nossa hoste.

Até aqui não haveria história. Mas sucedia toda a família dessa antiga mansão jurar ela estar prenhe de fantasmas. Alguns já os tinham visto: a presença silenciosa e sorridente, na sala, de um homem loiro e de olhar azul, os calções enfunados à século XVI...; aos mais fora a comunicação ultrassensorial - Manda rezar uma missa no dia tal de cada mês e procura nas fundações o ouro do meu dote - segredava-lhes ao ouvido a Senhora assassinada pelo morgado seu marido. Pelos vistos, o outro mundo trazia ali fantasmagoria para todos os géneros, gostos e interesses...

Culminando este ambiente, a carência de luz eléctrica e as velas circulando nos castiçais logo que o dia fosse embora.

Ainda vinham muito longe as auto-estradas. E sendo demoradas e cansativas as viagens para o Douro, fixada uma audiência no tribunal, íamos de véspera. Até porque eu conseguia marcações para as quinta-feiras à tarde, levando a espingarda para as manhãs às perdizes nos vinhedos.

Mas na noite vespertina... Os episódios eram tantos que, recolhendo ao quarto, o castiçal na mão, encetava uma qualquer leitura que pouco durava pelo bruxulear da chama a cansar os olhos. Restava dormir, mas o sono parecia aguardar o cavalheiro quinhentista ou as vozes do Além. O que tudo nada me apetecia...

Vai daí, uma solução apenas: carregar a espingarda e encostá-la à cabeceira da cama. Viessem as assombrações! Seriam dois tiros e os outro vinte e cinco mais até esgotar a cartucheira pendente na gaveta da mesinha. Algum deles enxotaria as aparições!

Nunca os fantasmas me incomodaram nessas noites precedentes da litigância forense. Esta foi dada extinta a nosso gosto pleno. E anos volvidos e a casa já transformada em icónico turismo de habitação, enfim electrificada, jamais esses entes, não imunes à minha arma, incomodaram os hóspedes. É que, entretanto, um portentoso rol de missas sossegara as almas ali penando... 

 

(Para o Ministério do Rocambolesco, o desafio da Ana de Deus - https://rainyday.blogs.sapo.pt/tag/o+minist%C3%A9rio+do+rocambolesco)

 

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