História de um velho como eu

Anda que não pode, o velho. Probo de forças para o trabalho, inconformado o bastante para jamais se aquietar. - Mas como assim? - questiona o sobrinho que é trintão e viciado no euromihões, cada noite cada sonho, cada sonho cada fortuna regada em Mercedes e BMW's?...
O velho, logo pela manhã, assenta no autocarro que foi da sua juventude, e enchapela-se de boné à época. Nunca aprendeu mais e sobreviveu. É o renascer das órbitas de um percurso - sem exagero! - milenar. A seu lado, a guia, uma linguagem que não entende, de pernas anchas, fanhosa, nem ela é doce sabor.
O velho entontece no emaranhado do trânsito, a guia manda-o seguir, muito de forças. Só por isso o velho não adormece já tão rotinado.
- O mundo é cão! - implode, saudoso do caniche que em casa o espera e lhe transmite o mais pacífico vagar.
E hoje foi como ontem, amanhã será igual. Mesmo porque no fim do horário é a televisão, o noticiário, e o velho é incréu no mundo.
Conheci-o, ao velho, num botequim, os dois agarrados aos seus copos. Dele ouvi os mais sábios conselhos a levar aos mais novos. O velho só não percebeu: ele tinha muitas rugas; eu o cabelo e a barba mais brancas do que uma figuração divina. O velho, afinal, conversava com outro velho.