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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Janela, a companhia

João-Afonso Machado, 05.03.24

ANDORINHAS.JPG

Redondinha, rechonchuda e irrequieta. Contando toda a vida com a esguia e comprida sombra que era a irmã, de voz guardada quase só para os alertas - Maria, deixa a capoeira e anda comer...

Porque os seus dias eram o quintal das traseiras e a criação: as galinhas e perús, os patos e os coelhos, e a horta em que se empenhava, de todo desleixando o interior da casa. Por isso duas solteironas, a sequinha e organizada tomando conta da outra, aérea como um balão às cores.

E o povo na aldeia comentava no que daria aquilo tudo, se a mais velha fosse deste mundo primeiro... Comentava, comentava, até essa manhã em que Matilde, a austera, serenamente não acordou, muito estendida, direitinha na sua cama, como se estivesse já à espera da vinda da vizinha Lurdes que, entre avés-marias e suspiros, a enroupou com o vestido negro e solene, para esse dia depositado no armário. Maria chorou, chorou, pôs luto carregado e então sentiu-se só, tremendamente só. Sem ânimo para as couves da horta e da bicharada, quebrando ante as ervas invasoras, oferecendo poedeiras e coelhas a quem quer lhe passasse à janela. Havia já quem se queixasse, aquele naco de terreno transfomara-se numa selva de ratazanas e... cobras!

Porque Maria foi habitar a janela. Não demorou conseguia o jeitinho de alguma conhecida que lhe trouxesse o que fosse do supermercado. O seu colo abundante, debruçado no peitoril, rapidamente forneceu ditos e hipérboles maliciosas aos do copito na tasca. A rapaziada, sempre de bem com ela, identificava-a com um ápodo alusivo a tanta generosidade de carnes. Mas sem dichotes... Maria reconhecia os gentes ao longe, pelos seus rumores, pela hora habitual de passarem sob a janela. Acenava ao sardinheiro, ouvindo a gaita estridente da furgoneta, e escolhia a sua dúzia de chicharros, nem sempre esturricados, esquecidos, na grelha do fogão. A vida na terra era a sua enciclopédia - a vida... e a morte, porque não havia funeral que não desfilasse debaixo do seu olhar compungido. 

Eram tardes pesadas de tantas "boas-tardes". E andorinhas, ninhos delas, ninhos adoptados, a sua nova criação! Depois, com a noitinha, o recolher à cama, sonhando já com as alegrias fenestrais da manhã seguinte. Até que, estranhando a sua ausência no seu poiso, a vizinha Lurdes entrou, era meio-dia, e deu com Maria na cama, exactamente como anos antes a mana Matilde. Mas sem vestido já destinado, sem compostura, sem leveza que não a obrigasse a chamar por auxílio... E assim acabava a geração do falecido Ti'João do Prado, que Deus tenha em Sua Santa Guarda - pensou a Lurdes, acabrunhada.

 

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