Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Juromenha

João-Afonso Machado, 21.04.23

Corriam horas de contemplação neste rebordo do fim do mundo. Do outro lado do Guadiana, um Lethes trinado pelas cores dos pintassilgos, era o que fomos e esquecemos, era Espanha já. Porque foi um naco de Portugal ingloriamente perdido - roubado e jamais devolvido, esquecido, chamado Vila Real, outrora deste extinto concelho de Juromenha. Falo de uma aldeiazinha tão silenciosa como eu, ainda incrédula de olhos postos no berço português, toda ela à vista, acenando por nós. E seriam de barco - se o barqueiro não faltasse - vinte minutos para um pouco mais de portugalidade na infinitude da região. Mas a lancha dormia preguiçosa no ancoradouro e o abraço falado na nossa língua foi um aborto, que a estrada cobrava-nos 60 km na ida, e outros tantos de regresso.

IMG_7435.JPG

Olhar, olhar, olhar, viver do olhar...

Assim ali ficámos, magicando os mouros que D. Afonso Henriques levou à sua frente e os espanhois cobiçosos até serem triunfantes.  Todos, no curso da História, a acossarem a velha fortaleza de Juromenha, agora fechada para obras. Por mais um ano - explicaram os de lá. E do outro lado uma terra fértil, a rir da nossa gente, algo que me farta, porquê a nossa indiferença pelo que vai além do Litoral? Mais a mais sendo o Alqueva obra nacional, nossa, espraiada ante a minha contemplação?

Desci ao rio que cheira a pesca - carpos, barbos - e tresanda de apetite por esse gostinho meu.

IMG_7432.JPG

Confesso, era o meu baptismo de Juromenha. Não sei como não ficar prisioneiro da nossa paisagem... Dessa nossa riqueza, a voltar a cana e o carreto virão armados, sorvo do meu Reino o que ele me oferece... Mas decerto chegarei tarde: o metro quadrado atinge ali preços exorbitantes - fora do meu poder - que as águas, a paisagem, a tranquilidade e o desporto na barragem já mais não consentem. Resta o passeio

IMG_7430.JPG

e o direito ao passeio e ao sonho, que esse ninguém mo tira. Um dia visitar finalmente a fortaleza, encher os pulmões de bons ares, das estrelas à noite e do coachar das rãs nas margens do Guadiana... Um homem sem terra não precisará de mais...

IMG_7427.JPG

Os espanhois, ávidos do nosso bom comer, depois do antes, conquistam agora os restaurantes de Juromenha. Sinal da imortal vitoria da gastronomia lusa! Assim vai o Alentejo,  diz este alentejano por via materna. E dizia o meu querido Tio mais velho, nascido em Borba, - Prostituindo-se! - Não chegarei tão longe. Certo é, porém, a deixar-se aliciar, consentindo uma diplomática e eficaz invasão, perdendo a sua independência em meandros da maior finesse

Foi porque não determinei, no instante, os meus ossos ficassem em Juromenha

IMG_7428.JPG

repousando naquele cantinho sobre a magnificência das águas, em espírito a Eternidade pescando nas noites de luar galopadas pelas colossais carpas, pelos imensos barbos do Guadiana. Não, contudo, - que algum dia os enfiariam numa comandita de mesclados restos mortais e eu sempre me dei mal no meio da multidão...

 

33 comentários

Comentar post

Pág. 1/2