Lavando as águas

Parece ajoelhada, a chuva. Sobre as pedras da represa, logo de manhãzinha, ajoelhada a chuva lava as águas da ribeira. Fazendo das fraquezas forças, enfrentando o muito uso e a sujidade acumulada na torrente. E a chuva pica a correria das águas, encharca-as, espreme-as e torce-as, estica-lhes o caudal. É então um momento mais acastanhado da terra a desprender-se.
Como a poeira a pousar depois da zaragata apaziguada. As águas revoltas, robustecidas, hão, enfim, de acalmar. Já a chuva terá ido embora na serenidade de uma missão cumprida. Mas enregelada, a pobre chuva, esfregando as mãos insensiveis num avental de nuvens no horizonte, decerto contente, o sol a aliviará das frieiras. E fará a água lavada cintilar de transparência, pacificada e repovoada, outra vez a urbe dos peixitos.
As chuvas regressarão em novo ciclo, porém. Para uma barrela mais. É assim o movimento da vida - com os impertinentes ataques intestinais do bicho humano a conduzi-lo e a esbarrá-lo nas mais imprevisiveis curvas das ribeiras.