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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

No Avenida

João-Afonso Machado, 28.10.25

AVENIDA (preto e branco).JPG

Um copo de leite e um bolo de arroz divididos por mais de duas horas de espera entre a última aula no liceu e o treino diário de judo. Dava para preencher com a maior calma e muita ciência probabilistica o totobola, a imensa esperança numa fortuna súbita e merecida; dava quase para reviver toda a vida já vivida e antecipar a que vinha aí; e dava para sonhar, sobretudo dava para amar perdidamente.

Por isso essas horas constituem um gozo babado, ansiosamente esperado. O Avenida sobe uns degrauzitos até à entrada e é escassamente povoado. Nestes fins de tarde antes do treino, a bem dizer estamos lá, contemplativamente, o proprietário, eu e a minha mochila e o totobola... e ela!

Sim, ela, na mesa do canto, com uma chávena vazia de café, um cinzeiro e o isqueiro incansável a acender cigarros uns após os outros.

Não conheço qualquer outra freak na vida. E esta também não, embora me perca de paixão por ela. De baixo a cima, dos seus pezinhos guardados em sapatilhas de medida bem apontada, das pernas sem carnes mas revelando electrizante energia; da cintura, do umbigo, do balandrau que esconde mal um soutien que esconde pessimamente; da sua magreza rija, do seu pescoço, o seu longo e solto cabelo - freak, freak, champô à parte - das mãos ágeis de dedos fininhos e unhas algo roídas; e, assolapadamente, as suas feições simples e belísssimas, sem cores postas, sem betumes nem quaisquer artificialismos, apenas uma constante expressão triste.

Como se gritasse em silêncio pelos meus beijos, por afagos tacteados na impenetrável nuvem de fumo que a envolve. Mas tudo num desesperante olhar perdido em amarguras que se espalham pelo Avenida., como se o café tivesse sido aberto só para ela e os seus mistérios. Um café mudo que vagamente estremece à passagem dos raros automóveis lá fora. E onde não se bebem cervejas nem se joga dominó, muito menos se ouve o nosso vernáculo. O patrão, tomado pela quietude circundante, encosta a barriga ao balcão, passa a mão gordurosa pela careca e o pano húmido no tampo de vidro. E aguarda. Só eu esboço movimentos (enquanto ela expele contínuas baforadas de fumo), só eu dir-se-ia querer viver e vou à mochila, puxo uma manga do quimono, uma pontinha alaranjada do cinturão: talvez desperte assim a atenção dela, a sua faceta budista que há de estar lá. E observo-a, miro-a sinto-me uma seta lançada àquele reduzido soutien. Uma seta com mãos...

Casaríamos, teríamos filhos, seríamos felizes e eu respeitaria qualquer regra comunitária, até tomaria café e sabe-se lá o que mais...

Mas há semanas que não a vejo. Corro a vila e não há meio de a ver... Talvez devesse partir e procurá-la na Índia. Seria mais eficiente do que está a ser.

 

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