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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

O "arranha-céus"

João-Afonso Machado, 11.04.24

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O Pai goza e ri, desdramatiza. A Mãe não solta palavra, carregada de filhos. - Ora cá estamos no maior prédio do Porto, o "Arranha-céus"! - Todos esticamos o pescoço oito andares acima, altitude impensável, vertiginosa, a competir com os Clérigos. É o dia tremendo das consultas. Na Praça D. João I.

A entrada, imponente e marmórea; o elevador de grades barulhentas; a gente sabedora de uma tarde toda de maçada silente, acabrunhada. Há brinquedos trazidos para entreter as longas esperas, afinal remédio de minutos, antes os mergulhos nos sofás de napa...

As senhoras da recepção sabem tudo menos a afabilidade. Usam meias que lhes ocultam os pêlos das pernas, uma cabeleira cheia de atavios, vestem-se de bata branca, muito sisudas. Diante delas a Mãe é quase uma menina... É com os Pais que falam numa linguagem só perceptível pela intuição de uma tarde tormentosa. E ela - a famigerada tarde - principia com o Pai, engenheiro, tentando a sorte do funcionamento dos eléctricos cujo telhado, assim de cima, é visto e comentado por não mais de meia hora. Depois o regresso à enfadonha espera, já fartos de tudo, impacientes e inquietos, expressamente proibidos de pular nos sofás.

Chega, pós horas, a consulta de pediatria para os putos. Há pesagens na balança e apalpações antes da conferência final entre espessas baforadas do fumar do médico e do Pai, enovoando o respirar de todos. Contudo o programa não findara e, após intervalo, segue para o dentista: o Dr. Adérito, um suplício que emparceira com o Pai na caça. Homem alto, vigoroso e conversador. De bata branca, também. Armado de uma broca articulada que ele usa como quem corre a mão no tiro à perdiz, zunindo disparos que meticulosamente vai descrevendo ao Pai. Sobram guinchos e esperneares - Menino, menino!...

E, quando não, a clínica de radiologia, ainda no mesmo imenso andar. Para as radiografias, ao menos um mistério indolor e quase imediato porque o "Sr. Doutor" é primo do Pai e com isso não há perucas nem meias tapa-pêlos ou batas estultas.

Escurece, entretanto, quando a malta sai do "Arranha-céus". - Clang, clang! - despedem-se as "lagartas" do elevador. Honrando o compromisso dos Pais ante a filharada, bem comportada, segue-se o lanche - bolos e Sumol - na Arcádia. Já a passarada chilreia nas árvores sobre a paragem dos eléctricos. E toda a razão ao Pai, o "Arranha-céus" maldito era nada, basta ir a Lisboa, onde os primos vivem sosegadamente num 10º andar de vistas para o mundo até aos Clérigos. Sem pediatras, brocas e pernas peludas escondidas.

 

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