O Pai Natal está em todas

A promessa foi cumprida. Era uma comprida promessa de um serão fora de portas, indo além da fantasmagoria do arvoredo em volta, um passeio quase tão amplo quanto a magnitude da galáxia, e mais iluminado ainda. Simão já o vivia e gozava muito antes desse - É hoje! Vamos lá! - que o fez pinchar ao céu em transe. Iria, enfim, conhecer o mistério nuclear de uma explosão que não seria apenas imaginativa mas imensa, acentuada pela noite fria aquecida no vórtice da cidade em vésperas de Natal.
Chegou à praça central onde parecia concentrar-se a gente inteira da terra, entrevista entre cores tremelicantes. Estavam ali todas as estrelas do firmamento movimentando-se ora compassada, ora imprevistamente. E, em boa verdade, arreceou-se, e recusou, o turbilhão da gigantesca roda giratória... ficando-se pelo carrocel, mais achegado ao mundo, cavalgando renas e trenós e a música toda de uma quadra que no curso do ano preenchia os seus sonhos. Depois foi a uma barraquinha onde a mãe não houve como não lhe oferecer duas rabanadas que uma menina de mini-saia e barrete à Pai Natal lhe depositou nas mãos, embrulhadas num guardanapo. Doces, as rabanadas, apimentadas com um saborzinho a vinho fino como o que ele às vezes surripiava à avó.
Veio o comboio com a sineta e o - OhOhOh! - próprio do velho barbaças que capitaneia a época, e Simão subiu, ele, a mãe e o pai, o fugaz circo funcionava uns quarteirões adiante. - Cuidado, Simão, não te distraias, não te percas no meio de tanta gente!
Porque Simão, chegado às tílias da Avenida, embasbacara vendo-as pingar leads como lágrimas soltas do céu, estrelas cadentes - quem sabe? Mas um guarda-chuva não seria de menos, agora mesmo uma senhora parecia ter levado com um fogacho na cabeça. Pensando duas vezes, Simão concluiu, porém, o Natal não estava ali para fazer mal a quem quer que fosse...
E quão diferente a quietude da aldeia de janelas cerradas! Simão riu, tentando imaginar o Pai Natal passeando por lá, de casa em casa, distribuindo chocolates à rapaziada. Impossível! Não aldeia, todos sabem, a sua visita é apenas na noite natalícia, com entrada pela chaminé e só se o sapatinho lá for previamente colocado.
A noite não parou enquanto o cansaço de Simão não lhe trouxe saudades da sua cama, e das suas conjecturas para daí a poucos dias. Teria o OhOhOh, como ele já tratava o prestável ancião, escutado as suas vontades e entendido bem qual o brinquedo - destes modernos, muito mais novos que o Pai Natal - por si desejado?
- Está na hora, Simão! Já vieste à cidade ver o Natal. Agora é dormir e esperar! - Simão, ainda atarantado, nem pestanejou, de mão dada à mãe. E depois ao seu colo, visto logo ter adormecido no decurso da viagem de carro. E, chegando, sonolento, quase baralhado, teve ainda forças para espreitar a noite, antes de fechar a janela do quarto. Talvez alcançasse dali as luzes que enchiam a cidade, o Pai Natal a embrulhar as prendas pedidas.
A noite, contudo, era toda silêncio e escuridão, durante dois segundos interrompida por uma estrela cadente. Simão insistiu de imediato no seu desejo. E agora sim, tinha a certeza, o moderníssimo brinquedo dos seus anseios seria decifrado pelo Pai Natal e apareceria no seu sapatinho. Faltavam só cinco dias!