O Souselas

Era o Souselas, como assim foi baptizado recentemente. Vivia no baixo das escadas para o andar cimeiro e, é de supor, jamais alguém o ouviu latir. Tinha, continua a ter, a boca cheia...
De raça indefinida, tal qua a peça que transporta: coelho ou lebre? Pormenores, verdades, rigores, óleo sobre madeira, que no mundo dos vivos não há já quem saiba relatar o berço e o propósito. Nem o percurso, a história do tiro, se corrido do tojo ou entre as pedras, e o desempenho do Souselas.
Fala somente o seu olhar triste e obediente, aperdigueirado. Manso, amicíssimo, fiel.
E pela sua fidelidade não ficaria em trambolhões de espera esquecida. O Souselas atravessou o reino, esquivou-se à noite escura do passado e - sempre de melancólica expressão cravada no focinho - levou um beijo de gratidão, o beijo terno que se dá a um avô ou a uma mãe que tantos dispersa pelos filhos. Foi aplaudido com honras de patriarca e fez-se-lhe o ninho lado a lado com aguarelas e crayons de perdigueiros do melhor quilate. Na parede, distintamente acima das fotografias de outros mais caçadores de nomeada.
Agora, mirar o Souselas é reviver anos felizes cerceados pelo ter de ser. Onde, de todo, não há lágrimas, só há orgulho e graças dadas a gente inesquecível como o Avô, a Mãe, os Tios. Todos espicaçando - Siga a marinha! Busca Souselas!