Soure
Edifícios antigos e azulejaria artística, comércio honesto, caseiro, sobrevoando o rumor imenso da grandiosa e suada praça.

Duas esplanadas atulhadas de gente e da escorrência de liquidos gélidos. Era o centro de Soure e o distrito de Coimbra conquistado pelo calor do inferno.
Seriam as muitas dezenas de caras de sempre, com hora certa, postas cada uma no lugar respectivo, delícia no observatório de Ruben A. (ando com Ruben A. atravessado nas minhas leituras e na escrita - «o que é que eu queria ser na vida? Pião de nicas? Ser apara-lápis? Espantalho da passarada? Amanuense de letras para desconto? Qual a minha missão na vida? Educar os outros? Instruir os alheios? Vestir os pobres? Despir os ricos? Rezar pela alma dos defuntos? Fazer promessas de bom comportamento? Todos com uma missão.»).
Atordoadamente assim, já a fugir a ideais colectivos e mantendo as demais interrogações, procurei respostas que não obtive na neo-manuelina Câmara Municipal desta que foi a terra do Marquês de Pombal (que queimava os ricos e enforcava os pobres),

sequer nas ruínas do castelito, guarda avançada do reino ainda contido na margem de lá do Mondego.

Vagueei desorientado, esbarrei nas águas do Arunca, na sua ponte,

a montante, na sua face ainda românica, a contrária à deste milénio, por onde os transeuntes circulam sobre o ferro. E na represa, no peixito que sempre me lambuza vontades. Melhorávamos... E o rio estendia-se em favores à canoagem

um tanto a estragar intentos contemplativos e aquele nicho made in Alabama onde me fartei de fuzilar pontos de interrogação. Qual «espantalho», qual «apara-lápis»! - caderno e letras nele com força! E retratado todo o vigor da madeira e da telha, até o do encaixe de zinco, era afinal a Geórgia e a infância de Ray Charles.

O que veria, na sua cegueira de anciã, a personagem sentada na varanda do rés-do-chão? Só podia ver a vida passar na corrente do Arunca, horas a fio, horas de desabafos ou amuos, diferentes de tão iguais sempre, salvo em discussões invernosas com o caudal a ultrapassar os limites do civismo, vindo por aí a cima de voz grossa e crescente...
Mas, para já, era a frescura do fim de uma tarde custosa e silente, pesada e envolta em moscas. Aquelas bandas iam descansar, cumprir a sua «missão».