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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

O Hilário

João-Afonso Machado, 22.01.24

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Nos idos em que caçar não era caro, a freguesia parecia uma colmeia de caçadores. Um zumbido excitado na véspera do regresso às vinhas e às matas, em volta de uma, duas, três, um entardecer inteiro de cervejas na taberna, e do costumeiro bagacinho do Hilário.

O tempo não esvanece a sua figura. O Hilário, o mais idoso do enxame, um voar já custoso, quase arrastado, distinguia-se pela sua veneranda calibre 12, uma arma de canos longos e de cães ainda. Talvez mesmo um dinossauro oitocentista. Mas bem amestrado, sempre fiel ao dono.

Faltar-lhe-iam já os reflexos. O Hilário não pendurava muita caça à cinta e atirava com outra convicção aos coelhos. Porque as perdizes requereriam depois um longo historial a justificar o disparo falhado, a azelhice...

Mas um dia houve que foi o seu. A notícia perspassava os bardos e saltava de exclamação em exclamação - O Hilário caçou uma lebre!

A faina suspendeu-se para todos testemunharem a proeza do Hilário. E ele lá estava, muito sorridente, a lebre aos pés e o velho fusil de cães na vertical, as mãos ambas amparadas na boca dos canos da arma. Parecia o Bulhão Pato.

Não será complicado descrever aquela presença de faces enrugadas e tisnadas do sol, a barba dois dias atrasada. Alto, seco, a conversa enrouquecida pelo cigarro sem filtro. De boina preta e camisa ou blusão surpreendentemente garridos, e as galochas a defenderem-no da humidade matinal. Era assim o Hilário.

No ano seguinte ao anterior, não surgiu com a sua histórica clavina e o rafeirito. - Que é feito do Hilário? - O Hilário morrera, levaram-no os rigores do inverno transacto. Mas onde jazerá o Hilário? Foram quantos despedir-se dele? E o destino dado à sua inesquecível espingarda de cães?

Que descanse em paz, amigo Hilário. Para seu sossego, a bem dizer a caça não lhe sobreviveu. A vida está ruim e a gente acredita, Deus reservou-lhe uma vinha eterna cheia de coelhos e lebres e perdizes. Consta por aí, até lhe afinou a pontaria! 

 

Vésperas...

João-Afonso Machado, 28.11.23

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Venho de muito longe em caminhos destas botas que aleijam, e sangram em mim as saudades da terra corrida sem pedras no couce do arado.

O Fidalgo foi-me buscar ao meu coberto. Que viesse, era uma ordem, trouxesse o bornal e que comer - um naco de broa, um pedaço de toucinho, íamos por El-Rei. E como eu também o Bastião e o Silvestre...

A Mulher chorou - Cala-te mulher! De que nos vale chorar? - E pus à cinta a funda e o cutelo guardado na arca do meu Pai Vicente, que Deus tem.

A hoste do concelho reuniu com gente de monta. Marchámos a pé, já perdi a conta aos dias. Nas cavalgaduras apenas os fidalgos em reluzentes armaduras. A mim coube em sorte um gibão pregueado em ferros e um pique sempre a roçagar as ramagens. Marchámos, marchámos, de ataduras dos joelhos para baixo, um casco ferrugento, amolgado, a macerar-me a testa.

Pois prá'qui estamos agora, a bem dizer iluminados pelo fogo do cerco ao castelo. Quase todos os dias são chamados muitos, e  muito poucos voltam. Ele são as escadas e os arietes trepando o monte, e os berreiro e os urrros, o pavor dos padecentes debaixo do pez fervente e dos pedregulhos lançandos das ameias. Há quem nem pie - os cortados por frechas e virotões, felizardos... E a cavalaria não avança, carece de espaço, estamos como estávamos, as portas sempre rijas da muralha e o trabalho impossível dos peões sem nome.

Diz que amanhã, ou depois, nos toca a vez. Então lá iremos, o Bastião, o Silvestre e eu, João filho de Vicente, e os outros todos. Quantos de nós hão de regressar para voltar?

Espreito o castelo e o medo passa-me ao lado. Se havemos de morrer de fome ou da peste, caindo aos pedaços, porque não morrermos lapidados, agarrados ao pique? Que outra escolha para nós? Do pez ou do azeite a escaldar, dos calhaus, pode o Senhor até compadecer-se mas ...

... viver a pensar em morrer é que não adianta. Tenho acaso uns trinta anos e choro só os dois filhitos que ficaram entregues à mãe... Saudades de um pai levado pela sorte em que nasceu.

 

Santo Antero

João-Afonso Machado, 28.10.23

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Está sentado na outra ponta do banco e anoitece-lhe a vida. Recordo-o dos tempos da Universidade, sob o luar que luminava a Sé, invectivando os Céus, de braços furiosos no ar, Deus se existisse que o fulminasse com um raio, ali mesmo. Ímpia demência ruiva dos seus cabelos, da sua barba! E ouvi depois do seu duelo na Arca d'Água, da tipografia em Paris e dos anos farejando o sossego nas dunas de Vila do Conde, antes do regresso exaltado à frente da batalha da Liga Patriótica do Norte... 

Ultimamente tutorava as duas filhitas do inditoso Germano Meireles. E agora encontro-o aqui em Ponta Delgada, não aparentando a heresia nem o seu nihilismo professo; também não a paz nirvânica que nunca deve ter alcançado...

Antero de Quental! O Santo Antero, assim lhe chamava o José Maria. O poeta e o filósofo cujas páginas, dizia o Oliveira Martins, foram todas escritas «com sangue e lágrimas»!

E bem se vê. Melhor se pressente o místico e metafísico incapaz de se acomodar num sistema coerente para onde caminhem o Universo e a Humanidade. Não, é evidente, as ideias em Antero maceram-lhe o corpo e a alma, é com a sua própria consciência que ele discute, não se conforma, desespera e tira o revólver da algibeira.

***

Estremeço ante o disparo. Jamais o esquecerei, nada podendo fazer para contrariar a História. Estou lá, no Campo de S. Francisco, no seu banco fatal... Mas junto do corpo de Antero, ainda a vida não fugira completamente, segredo-lhe umas estrofes suas, para que as leve na viagem - «Minha alma, ó Deus, a outros céus aspira:/Se um momento a prendeu mortal beleza/É pela eterna Pátria que aspira...».