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O 207, partindo silenciosamente de Campanhã, atravessa o mundo tripeiro em toda a sua orografia. É uma janela aberta para o tempo ido de tantas lojas que conheci vivas, fornecedoras do dia-a-dia, montras de laranjas e limões, as lampadas para os candeeiros. Agora, fatalmente, lugares de comida e souvenirs cujos ventres maternos, nota-se bem, são de mui longínqua proveniência. Recordo em cada rua uma história, um episódio à esquina, uma patifaria qualquer. Ser novo é ser ágil e inenarravelmente asneirento e inconveniente. O 207 já subiu a Rua do Heroísmo e vai no Prado do Repouso, agora festivaleiro, de churrasqueira à porta, uma coxa de frango no derradeiro adeus aos defuntos. Na banda oposta ainda jaz o prediozito onde vivia o Prof. Rocha, uma existência leccionante e solitária. (Os oitenta anos do Alexandre Herculano, toda a dedicação aos alunos, uma vida, a sua velhice entrevistada e a crónica n'O Tripeiro sobre o aniversário do Liceu, o cartão religiosamente guardado a agradecer a revista oferecida, enaltecendo a elegância da escrita. Decorreram três décadas, o Prof. Rocha dispôs da sua alma, o corpo decerto atravessou a avenida e depositou-se no Prado do Repouso, já dormindo antes da churrascaria chegar...)
Rodrigues de Freitas resiste toda arborizada, em casario fechado e sombrio, enfarruscado mas de pé. Coito de fantasmas da burguesia camiliana que ia à missa a S. Lázaro e se passeava no seu jardim. (À janela, nas minhas pesquisas na Biblioteca, troçava do que tudo dera no antro das mais desgraçadas e desgastadas - ó puritanos pais e mães de famílias tripeirinhas! - das mais vis rameiras da cidade, a tarde toda entre os canteiros floridos à espera de qualquer velhote ainda com folego e alguma carteira...)
Três décadas de personagens desaparecendo todos os dias. As hospedarias das artérias transversais já não vivem da meação das meretrizes ou dos calotes dos viciados na heroína: que rumo terá levado aquela loira macilenta, o seu olhar tão azul e tão fiel ao namorado, dono de não sei quantas doses de haxixe, umas fartas sessões no tribunal sob o meu patrocínio?; serão agora livres ou roídos, serão Céu ou torrões de terra apenas?
Era isso Rodrigues de Freitas - restos de portentados e colarinhos eriçados, marginalidade, quitandas, um quotidiano insistentemente igual.
Mas já não é. Há "alojamentos locais" e suspeitosos planos de modernidade sem graça alguma. Os restos mortais da novelística de Camilo triunfarão sobre a Eternidade. E o 207 chega à Batalha, aliviado - sim - por passar os portões do Prado do Repouso, a desapertar-se dos fumos, estugando o passo... e jamais parando na churrasqueira.