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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Duas pessoas

João-Afonso Machado, 10.11.25

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Na volta de uma curva qualquer, posta diante da floresta e dos canaviais, a capelinha imaculada. E a tília, as paredes como ossadas de cavaleiro antigo e o carvalhal já amarelecido os enfeites do seu elmo. O resto era toda a imensa estátua emudecida, o retrato de um batalha esquecida por ali.

Sem mais gente além de S. José, o da capela, e o secular guerreiro petrificado no calcário, como compete aos restos mortais que se prezem.

Por isso, as perguntas ficaram para o Presente que, geralmente, pouco sabe de antes e de depois. - A capela é junto a... - Ah, isso é Rio Covo, um lugar extinto. - Extinto, não! - redarguia a menina do lado. -  Sim, mas... - ia timidamente replicar a colega. - Vive lá gente! - interrompeu a primeira, que devia ser quem mandava na Junta da freguesia.

Enfim, vive lá gente. Duas pessoas. Em cima das árvores? Não sei, é em Rio Covo. Só esqueci perguntar se seriam eleitores também.

 

À procura de há trinta anos

João-Afonso Machado, 19.09.25

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O 207, partindo silenciosamente de Campanhã, atravessa o mundo tripeiro em toda a sua orografia. É uma janela aberta para o tempo ido de tantas lojas que conheci vivas, fornecedoras do dia-a-dia, montras de laranjas e limões, as lampadas para os candeeiros. Agora, fatalmente, lugares de comida e souvenirs cujos ventres maternos, nota-se bem, são de mui longínqua proveniência. Recordo em cada rua uma história, um episódio à esquina, uma patifaria qualquer. Ser novo é ser ágil e inenarravelmente asneirento e inconveniente. O 207 já subiu a Rua do Heroísmo e vai no Prado do Repouso, agora festivaleiro, de churrasqueira à porta, uma coxa de frango no derradeiro adeus aos defuntos. Na banda oposta ainda jaz o prediozito onde vivia o Prof. Rocha, uma existência leccionante e solitária. (Os oitenta anos do Alexandre Herculano, toda a dedicação aos alunos, uma vida, a sua velhice entrevistada e a crónica n'O Tripeiro sobre o aniversário do Liceu, o cartão religiosamente guardado a agradecer a revista oferecida, enaltecendo a elegância da escrita. Decorreram três décadas, o Prof. Rocha dispôs da sua alma, o corpo decerto atravessou a avenida e depositou-se no Prado do Repouso, já dormindo antes da churrascaria chegar...)

Rodrigues de Freitas resiste toda arborizada, em casario fechado e sombrio, enfarruscado mas de pé. Coito de fantasmas da burguesia camiliana que ia à missa a S. Lázaro e se passeava no seu jardim. (À janela, nas minhas pesquisas na Biblioteca, troçava do que tudo dera no antro das mais desgraçadas e desgastadas - ó puritanos pais e mães de famílias tripeirinhas! - das mais vis rameiras da cidade, a tarde toda entre os canteiros floridos à espera de qualquer velhote ainda com folego e alguma carteira...)

Três décadas de personagens desaparecendo todos os dias. As hospedarias das artérias transversais já não vivem da meação das meretrizes ou dos calotes dos viciados na heroína: que rumo terá levado aquela loira macilenta, o seu olhar tão azul e tão fiel ao namorado, dono de não sei quantas doses de haxixe, umas fartas sessões no tribunal sob o meu patrocínio?; serão agora livres ou roídos, serão Céu ou torrões de terra apenas?

Era isso Rodrigues de Freitas - restos de portentados e colarinhos eriçados, marginalidade, quitandas, um quotidiano insistentemente igual.

Mas já não é. Há "alojamentos locais" e suspeitosos planos de modernidade sem graça alguma. Os restos mortais da novelística de Camilo triunfarão sobre a Eternidade. E o 207 chega à Batalha, aliviado - sim - por passar os portões do Prado do Repouso, a desapertar-se dos fumos, estugando o passo... e jamais parando na churrasqueira.

 

Foi assim mesmo

João-Afonso Machado, 23.08.25

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O convite foi quase uma imposição, a exigência de um preito de vassalagem. Mas correspondido num ímpeto curioso de saber das pessoas e dos lugares, tudo nomes cuja lenda atravessava distritos inteiros viajando com charlateiras de general mirando do cimo dos seus torreões palacianos.

O grupo compareceu, pois. Venceu todos os contornos de um portão verde, férreo de um ferreiro decerto famoso. E a seguir os jardins, como se pioneiros no Eden, ao som dos bandos de pombinhas, tantas que só podiam navegar por ali os casais completos da Arca de Noé. O Criador, todavia, subira já aos Céus e toda a autoridade em terra mantinha-a o pulso da nonagenária que por cá ficara, a sua viúva.

Alimentava-se do orgulho na obra que fora a vida vivida em comum. Gozava o seu fausto, o quarto amplo de paredes em madeira, um filme de fotografias de família espalhadas por todo ele. Tinha-se sido recebido nos aposentos da Senhora, fisicamente já debilitada, intelectualmente activíssima a tarde inteira.

Houve chá e bolachinhas de manteiga, criadas fardadas a rigor para servir. A Rainha, mãe de muitas mães, e avô de um número incontável de netos, acolhia com amabilidade mas sempre investida nos seus poderes, incluindo o de medalhar crianças com bombons. No hotel que fora o sonho realizado com o seu marido.

E essa apresentação, quem diria?, valeria também como a despedida final. Porque a Senhora iria ter com ele um mês volvido. E não voltaram ambos, vai lá um quarto de século já.