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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Leitoada em Ançã

João-Afonso Machado, 24.11.25

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Chegados a Ançã, logo inquirimos avidamente onde comer o ansiado leitão. Três esfomeados, eu, o meu filho mais novo e o velho amigo JB, um galaico-francês que deixou Guimarães aos seis anos e agora tem saudades, passa a vida cá.

Pois o leitão perguntado com tanta rapacidade estava apenas n'O Verdadeiro Pingão, poucos minutos adiante, logo no início da estrada para Coimbra, dita a Rua Padre José Fernandes Pata. Foi fácil dar com ele, um avantajado edifício.

Sentámos à vontade, num silêncio muito próprio de um almoço de terça-feira. E assim sentámos, assim chegaram as entradas - mexilhão em molho verde, o bom pão bairradino, patés, chouriço e queijos... Nada de transcendente mas tudo com muito cabimento na nossa terrena vontade de comer. De cada qual foi um pouco. E para beber, sem preciosismos,  escolhemos um jarro (e depois outro) do branco frisante "da casa" - mesmo "da casa", ou melhor, da produção da Quinta do Pingão, vasta em vinhas - todo espevitado em gás, levezinho e bastante adamado.

O leitão esplêndido e muito bem cortado em nacos de generosa carne e tempêro. O molho à altura do acontecimento, não faltando as tradicionais rodelas de laranja e salada de alface, tomate e cebola. Nem as batatas fritas cortadas - foi o único senão - em palitos, quando todos as sonhávamos às rodelas.

Enfim: a sobremesa foi dispensada. Fica a nota de outras proezas do Pingão - a chanfana, o polvo à lagareiro e o bacalhau à "zé do pipo". E uma homenagem ao Sr. Olímpio, o proprietário deste restaurante que em 2026 completará 50 anos (meio século) de leitoadas em Ançã.

 

D. Célia, a alegria de Sobretâmega

João-Afonso Machado, 14.10.25

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Por acaso o poiso chama-se Adega da Albufeira e vive rodeado de águas e barcos de recreio, - flotilhas deles - de pescadores, e no recato da românica igrejinha de Santa Maria. Costumamos parar lá quando vindos do Marco de Canavezes, de regresso ao coração do Minho. Mas, para todos, o almejado albergue é conhecido pelo nome da sua proprietária. - Vamos almoçar à D. Célia?! - e o entusiasmo exorbita, a velocidade aumenta. 

Há fados, há os viras, há magustos no tempo das castanhas. E come-se bem! Na última incursão eramos uns cinquenta, um autocarro cheio, meio por meio de famalicenses e barcelenses. A meteorologia ajudou e o repasto foi ao ar livre, uma mesa comprida até lá longe.

Agora imaginem... Chegaram as azeitonas e o pão, depois o presunto e as pataniscas e a escolha do vinho. Gostos variados, há minhotos transfugas, - verde, maduro; branco, tinto... Que grande confusão! Estes almoços-convívio realmente só em dias contados...

Seguiu-se uma espera fatal. O prato fora previamente delineado - vitela assada, a batata também, e o arroz - mas mesmo assim... É que se cozinha na hora, não há cá comida requentada. Bendito o vinho que nos acolitou (ele e o presuntinho) e nos acompanhou nesses tão aflitivos momentos.

Estávamos nesta discorrência da adega e da salgadeira, eis que surge a D. Célia na mesa, para gáudio dos comensais. Sempre a melhor anfitreã, - Então está tudo bem? À vontade, peçam o que lhes apetecer...

O minhoto é, por natureza, conversador em nota elevada. Só emudece ante a vitela, em todo o seu esplendor, finalmente aparecida. A laracha retorna, já saciado, a gargalhada também. Sempre imparável, mesmo quando tombam duas garrafas (uma de branco, outra de tinto, zangadas ambas) nas pernas de uns desafortunados. Limpa e relimpa, os mais velhos põem as mãos nas orelhas tentando apurar a acústica. O pudim esgotara, havia molotov em alternativa. A refeição aproximava-se do fim e urgia partir. Barcelos e Famalicão despediram-se felizes e saciados - Até uma próxima, D. Célia!!!

 

O Costa Verde, santuário do cozido à portuguesa

João-Afonso Machado, 11.09.25

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Agosto suavizara-se, felizmente, cansado e cheio de preguiça. Foi quando o telefone tocou - Então, por onde anda? Estamos todos à mesa!

O cozido à portuguesa passara-me ao lado. Estava marcado para o Costa Verde - Cozinha Regional, no monte da Senhora do Carmo - lugar de romagens, romarias, romeiros e noites infindas de folguedo - na freguesia de Lemenhe, aqui em Famalicão. Um restaurante para mim desconhecido e acedido pela Rua Eça de Queiroz, mescla de casas e bouças, a maior homenagem ao Mestre, uma viela parecendo oscilar entre o lisboeta Largo do Barão de Quintela e o velho Olimpo de Zeus.

Lá cheguei e efusivamente cumprimentei os restantes comensais. Três amigos, três bons amigos do lado de lá da barricada política - um jornalista e dois antigos autarcas e o princípio da lealdade cumprido a todo o comprimento. A travessa não demorou a chegar à mesa, nem o bom tinto verde - o vinhão - e as malgas para o sorver.

O cozido minhoto é essencialmente o porco, desde as orelhas aos presunhos, alguma batata e cenoura e uma espantosa camada de couve para fintar as gorduras em parceria com o vinho. A festa acaba quando a travessa chega ao fim e a conversa se esgota, ou as horas a mandam para casa. No mais tudo é tema entre memórias e projectos, essa pujança de amanhãs que suporta a existência.

Por isso o cozido não pesa. Não é tragado, vai sendo comido e conversado. No cimo do monte da Senhora do Carmo, mirando a poente, uma rota aérea que em dez quilómetros nos deixaria no Atlântico. Mas não, não era dia de caldeirada ou de algas. Antes o registo de um bom pasto famalicense e, à despedida, de um amicíssimo - Até breve!