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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

O Conqvistador (do castelo de S. Jorge)

João-Afonso Machado, 31.12.23

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Gatinhámos em tuc-tuc desguardado e muito falador, motor de motoreta, a Costa do Castelo. Eu ia por uns retratos nos miradouros, mas dou-me sempre mal com tickets e filas para comprar tickets. Assim nos bastámos com as imediações da velha fortificação. E como choviam pingos grossos e gelados do vento, tudo se nos revelou num repente: a fome e o restaurante Conqvistador. Ainda com lugares vagos, ali na Travessa de S. Bartolomeu, e um corpo operacional oriundo do outro lado do Atlântico: a Ana, a Paloma e o Gabriel.

O velho amigo que me acompanhava, além da simpatia pelas do almoço, assumiu as despesas da conversa - imparável - com o pessoal. A sua escolha foi para o bacalhau na brasa; a minha para o naco de lombo.

E não demorou a tábua a chegar, de basta espessura, sem rebordos. Não fosse o naco tenro, íamos ter asneira certa... Porém, era infundado o receio, a antevisão do pedido da espada emprestada ao D. Afonso Henriques do painel de azulejos na entrada - a faca movimentava-se sem esforço, quase como por manteiga adentro.

Sobre o acompanhamento: umas batatinhas que eu digo cortadas em rodelinhas, passadas pelo forno e fritas (ou vice-versa), excelentes; e verdura q.b.

Rematei com requeijão e compota de abóbora. Saciei-me. E bebi bem, um tinto de Palmela, da Casa D. Ermelinda, de aroma fundo, sabiamente apaladado, uma armadilha de 14º!

(Ando espantado com a graduação dos nossos vinhos de agora. Um destes dias, já não sei onde, apresentaram-me um do Douro que "media" 14,5º! - é que as uvas, explicaram, quando foram para a pisa estavam como passas, quase só açucar... Será... da meteorologia, das alterações climatéricas...)

Enfim, estava frio e saímos aquecidos para prosseguir a tournée. Deixando uma especial palavra de agradecimento pela amabilidade e eficiência da Ana, da Paloma e do Gabriel. E aquele pequeno senão: os preços são mesmo só para adultos.

 

A Taberna Dom Egas (Fafe)

João-Afonso Machado, 19.12.23

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Foi uma breve estadia nesta cidade. No Hotel Fafense, de excelente qualidade, onde para comer me recomendaram a Taberna Dom Egas, na Praceta Egas Moniz. E eu por tabernas...

Ali almocei. Da primeira vez, vitela assada à moda de Fafe, um autêntico pitéu; da segunda, bacalhau recheado. E em ambos, a regá-las, o vinho da casa, oriundo de Celorico de Basto, um branco de transição, suave e adocicado.

Mas tornemos à vitela, de ímpar carne tenra, saborosa, acompanhada a batatas assadas e verdura por aí fora; e ao bacalhau, às suas grossas lascas, descascadas de espinhas, sem mais nem menos sal. Foi só deglutir esse minério sem necessidade de o escavar de partes duras. Vinha com batatas fritas às rodelas, muita cebola, o prato de eleição! Deixado a um canto vazio e triste, pobretanas até para os gatos. Sobremesas como o leite-creme queimado e o pudim do Abade de Priscos complementaram os dois almoços e sentaram-me mais confortável no cadeirão minhoto, que é o da minha Província, já também a do Senhor meu Pai.

(A propósito, venho descobrindo a idiotice de chamarem Minho aos distritos de Braga e Viana. Tão-somente! Pronto, daí nasce uma nova guerra para eu guerrear, que o Minho nasce onde o Porto acaba e só pára na fronteira espanhola - com pesar dos galegos - ou nas evidências da região demarcada do Alto Douro...)

Mas dois dias em Fafe foram sempre de opíparos almoços na Taberna Dom Egas. É um espaço amplo, de todo dedicado à comida regional e tradicional. Data de 1991 a sua inauguração, então servindo comeres brasileiros... A moda não pegou - e a taberna não demorou a tomar o bom rumo.

Conheci-a sempre com a casa cheia. São comensais os fafenses e, às quartas (dia de feira), lotes de gente das redondezas, como em fins de semana fileiras de espanhois e mesmo outros especímens estrangeiros. Abre para o almoço e só fecha depois do jantar porque as tardes são, para tantos, de petiscada. Conforme a sua vocação... E por isso emprega 14 pessoas a tempo inteiro, a que amiúde acresce a segunda linha de reservas laborais. 

Em suma, a marca "Dom Egas" é prestigiada. Sobejamente procurada em marés de emigrantes; e pelos artistas que vêm a Fafe, sejam eles do teatro, da música ou do futebol... Mesmo os da Política não dispensam passar por lá!

E em tudo, desde os pratos às sobremesas, o produto é por inteiro da casa!

Esta - sempre cheia, mas sempre também com lugar para quem chega. Como hoje, dia em que escrevo, e ontem também. Diante mim o Sr. Francisco Costa Moura, o proprietário, a quem só tenho de agradecer a sua amabilidade condimentada em conversas sobre caça aqui na vizinhança - conversas tão sérias e profíquas que trocámos  números de telefone porque, se Deus quiser, para o ano cá nos encontraremos para umas perdizes, uns coelhitos!  

 

O Costa do Sol by the Sea

João-Afonso Machado, 14.10.23

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Foi o recomendado para o inevitável bife de atum em estadia nas ilhas. E o trajecto até lá, nos confins de Santa Cruz da Graciosa, seguindo um longo estradão depois da igreja da Misericórdia, não tem que enganar: é o mesmo do Clube Naval da vila, de que o Costa do Sol by the Sea é o restaurante.

Cheguei cedo, orientado pelas gaivotas. Pescava-se à linha no cais, mas embarcações ancoradas só duas. Diz que em Agosto há mais algumas... 

Tratava-se, porém, de comer. Embora ainda não fossem horas de servir, fui encomendando - atum à regional, assim se chama o prato. E no termo de mais uma voltinha, com o poente desanuviado e a encher-se de cores, regressei; a mesa que me estava destinada encostava-se à janela sobre a baía. (A pesca prosseguia, interessantemente.) E na vastidão sem fim da Graciosa chegámos então - eu e a funcionária, a Beatriz, - à conclusão de que já nos encontráramos essa tarde, quando ambos viajámos da Praia para Santa Cruz no mesmo mini-bus.

Gabei-lhe o olhar lindíssimo. E a sua amabilidade. A Beatriz, por seu turno, explicou que o restaurante foi concessionado ao casal Srs. D. Márcia e Ronaldo Silva, ex-emigrantes nos EUA. O seu interior, diga-se, aposta numa imagem de informal conforto e decor de beira-mar. Enquanto assim íamos discorrendo, chegou o almejado atum à regional. Bem passado, como eu pedira. Vinha no seu prato, acomodado num alto colchão acastanhado de puré de batata doce. À ilharga uma salada de beterraba, alface, tomate, cebola e uma rodela de pepino que foi orfã de tudo o mais para trás. Faltava em que molhar a palavra e a escolha recaiu num Pedras Brancas de 2020, o «último exemplar dos distintos brancos da Graciosa». Com a indicação DOP desta ilha e comercializado pela Adega e Cooperativa Agrícola da Vila da Graciosa, apresentando-se como «vulcânico-puro-fruta especial-iodado-muito fresco-acídulo-mineral-salino». Bom, não sei se com toda esta sintomatologia, realmente...

Mas vamos por partes: o atum estava de estalo! Saborosíssimo, temperado com requinte, rimando muito bem o seu pendor mais salgado com a leveza do puré de batata doce e a frescura da salada. Vinte valores! O vinho, das castas verdelho e arinto, combinava magnificamente com o prato. Não alcança os do Pico, mas anda por lá perto. (A beber fresquíssimo e os seus 12º se encarregarão de realçar o seu lado frutado.)

E para sobremesa un creme burlé, outra forma de chamar pelo nosso leite-creme tostado.

Uma nota derradeira, que a sala vai enchendo e a Beatriz está tremendamente ocupada. O vinho é por demais exagerado no preço. Compreende-se porquê: os ilhéus não o exportam, os lotes de tão reduzidos não compensarão esse esforço; antes o vendem na Adega ou em restaurantes aos visitantes, como produto exclusivo que suscita a curiosidade e pelo qual - a experimentá-lo - se paga alto... e não se bufa.

Diante de mim passavam generosas pratadas de carne bovina de óptimo aspecto. Eu já jantara e escurecera muito. Era o tempo de uma voltinha a esmoer até ao hotel. Despedi-me, uma lágrima ao canto do olho, a promessa - algum dia daria de novo à costa...

O Costa do Sol by the Sea está aberto todo o ano mas (por enquanto) só serve jantares.