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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Alves, Gabriel (codiciosamente)

João-Afonso Machado, 05.07.24

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Somos muito bons no futebol mas talvez já tivessemos sido melhores, ao menos à mesa do café ou no microfone dos relatadores.

Os seleccionados viviam cá em casa, eramos todos vizinhos e a diáspora então inimaginável. Os domingos, tardes de catedral ou de telefonia, o fervor dos devotos às vezes premiado pela televisão. Portugal enfunava-se com o maior viveiro "técnico-táctico", de acordo com a avaliação do emérito Gabriel.

Alves: que é feito de ti? Pareces fugido desde a ascenção desta vaga bacoca de comentaristas-analistas, papagaios das estatísticas, ele agora são só assistências e golos, saudosos tempos em que chutavas sempre com o pé mais à mão.

E marcavas. Enfiavas o "esférico" bem no fundo das malhas de tantas jornadas de risota, e ordenavas ao "guardião" fosse lá buscá-lo; e o "esférico", pontapeado ou cabeceado, garantia-nos que a bola não era cúbica nem oval.

Hoje os nossos jogadores são estrelas cintilando no mundo inteiro. No tempo da tua ilustrada filologia "técnico-táctica", Alves, ouvíamos de ti, Gabriel, que os nossos defesas, médios e atacantes eram "codiciosos" - logo, segundo o dicionário, touros que procuravam o toureiro com insistência.

Alves, velho Gabriel, humanamente lhes tiraste os cornos; porque se codiciosos, jogariam com "codícia" - e assim abriste uma brecha lexical para este novo termo, uma espanholada bem dançada significando "ambição", "ganância".

Pela bola, Gabriel. Pelo Alves que descendo todos os corredores laterais e centrais, codicioso, foi à linha cruzar, e varreu capotes e bandarilhas com toda a codícia de um intemerato garimpeiro.

E é lá em baixo que fazes falta, Gabriel. Muita falta, Alves. Junto ao "rectângulo". A relatar, a filosofar, a entrevistar. Ainda assim quero acreditar que a tua herança técnico-táctica, empolgada e empolgante, nos consentirá levar de vencida a formação gaulesa a marcar presença nas meias-finais do Europeu. Vá  de a rapaziada se deixar de "posses de bola" e a chute sempre com o pé mais à mão. - Com muita codícia, ó codiciosos!

 

José da Xã "Des(a)fiando Contos"

João-Afonso Machado, 25.05.24

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Afinal não chegou a completar-se um ano sobre o pactuado almoço na Amadora. Por uma mão cheia de razões, talvez, mais decerto porque o Amigo José da Xã (blogue LadosAB -https://ladosab.blogs.sapo.pt/) partiu mundo fora a apanhar contos vivos. E, acabado de regressar, deu-os à estampa, proeza que não poderá passar despercebida.

O périplo terá corrido o espaço mas insistiu sobretudo no tempo. Alumiam-se, os contos, em candeeiros de azeite, aquecem-se no brasume da lareira do lavrador quando a chuva e o frio atacam a noite. E por essa ruralidade foram ficando, ora colhendo azeitona, ora negociando terras. Depois os contos abalam e alcançam cenários mais actuais: os hospitais, as escolas, quem os frequenta; os bairros citadinos periféricos, o seu característico falar, as tatuagens e outros adornos de agora; vivenciam a doença, a tristeza, a ilusão, a dura realidade dos finais nem sempre felizes, não raro com uma pontinha de fatalismo até; entram nas igrejas e são colhidos de surpresa pelas dúvidas da Fé, essa duríssima prova; e souberam lidar com gente boa e gente má, sobretudo com um enorme manancial de imprevisibilidade que os contos - às vezes mais uns postais - imparavelmente expressam.

Escrevendo o que escreveu, o José da Xã terá, por fim, desabafado - É a vida!

E veio então a Olga Cardoso Pinto (blogue A Cor da Escrita -  https://acordaescrita.blogs.sapo.pt/), com as suas ilustrações, reforçar a crença, a noção de que os dias da vida... são mais os bons do que os maus...

 

"O que faz falta é animar a malta"....

João-Afonso Machado, 01.05.24

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O Severino é amarantino. De gema. Apenas veio para o Porto a deixar para trás as nada prósperas leiras dos seus avós. Empregou-se numa repartição pública, coisa pouca, de horário rígido sem contemplações suas, e o tempo bastante para o comboio do fim de semana. Até à sua Amarante, de onde Severino tornava ao desterro carregado de hortaliças e enchidos.

Além disso, o Severino, solteiro mas já em idade casadoira, não perdia o seu S. Gonçalinho mais a esperança em moçoila fértil, boa esposa.

O anunciado fim da Linha do Tâmega - longo nome do comboio de Severino (- É prá'marante fax'avor, assim que chegava à bilheteira de S. Bento -) - concorreu para uma complicada teia de autocarros e rodovias de ida e volta à sua Amarante. E o Severino, a piorar a história, enjoa na estrada...

Severino não se conforma. É inscrito no sindicato, conquanto já não se lembre de pagar quotas.

Soube, de caminho, do desfile do 1º de Maio. O Severino não gosta de multidões... Todavia compareceu, desceu os Aliados. Posto atrás de uma tarja, tropeçando nela, sentido havia de berrar também pela volta do seu comboio. Saudoso das couves e chouriços que armazenava no seu quarto alugado e sempre arranjava como cozinhar, regalar-se e lamber os restos.

Já não é assim, porém. O Severino morreu, Deus o tenha. Foi mais um, nessa manhã não acordada, sem que a multidão citadina desse conta da fatalidade. Piedosos familiares trataram da sua leva para o jazigo, pródigo monumento onde foi inumado o avô. Mas, entretanto, a Linha do Tâmega não ressuscitou. Somente os anos foram trotando até tudo no mesmo.