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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Ávila

João-Afonso Machado, 23.12.25

Outra muito fugaz passagem pela história no mundo erguida. Ávila!, de Santa Teresa, doutora da Igreja. Uma vida de dor e meditação, sem calendário, e as nossas vidas em rodopio, impondo minutos no retorno do vagaroso ciclo medieval.

De muito longe, a bordo, a muralha rogando a fotografia impossível. O calado desespero imposto pela disciplina da tropa ordeira... É marchar e ver... enquanto as almas choram à velocidade da máquina. Porque o tempo maldito não deixará mais do que a porta principal da fortaleza

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e um ou outro ângulo, porventura mais expressivo, no desespero de imagens sublimes, cores maiores do que letras, compridas frases gravadas em pedra para sempre superando o pedreiro que as lavrou.

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Todos notarão o desgosto de uma corneta a soar como um chicote. É voltar! - ouve-se a esganiçadela. E obedientemente voltámos, calçadas fora, negros das pisadelas de épocas sucessivas que guardam os seus silêncios e não os revelaram. Viajar em grupo é isto, em contramão com as mordomias dos planos estabelecidos e seguros.

Mas para trás não ficara a erupção da Catedral del Salvador. Niquinhos dela, retratada consoante.

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Um dia Cronos submeter-se-á... Virá a infinitude dos momentos sublimes e todo o gótico aplaudido longamente. Virá a história em palavras vagarosas, tão nossas como castelhanas, ditas mais cantadamente. Ávila pede-nos muito, muito mais, e esse é e seu e o nosso drama.

Aplaca-me a angústia a sede do ayuntamento,  no intervalo de tantos palácios e episódios ocultos de invasões napoleónicas. (Escrevo correndo, como corri em Ávila...)

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Terra pouco dimensionada em área, pouco andada em visitas, terra nostra. Porque não ficar lá, e lá renascer? E enviar cartas ao mundo em letra antiga, pergaminhos em envelope com selo d'El-Rei na plenitude dos correios locais?

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Outra vivência. O mais é redundância. Ou uma cidade que desce o morro, dos mais altos da região, e nos proporciona lazer, livros, fogachos de escrita, a morte das fronteiras porque a Nação vive nas almas...

Restava a doce passagem pela Basílica de S. Vicente.

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Foi como a aspirina. Quase - senão iríamos e não voltaríamos tão cedo. A imagem adoçava a estadia que se impunha. Disse, a mim mesmo, - Ávila, até muito breve!

 

Fonte e hidrofenómenos de Ançã

João-Afonso Machado, 28.11.25

Terra de água. De fontes, córregos e moinhos. Lá em baixo, no fundo da vila. Ançã, ribeiras que amolecem o calcário e o tornam pedra sua. Única.

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O ano tem muitos dias, é seco e chuvoso, ganha e perde cores. Estamos no Outono e a fonte de Ançã, cheia de força, lança à superfície mais de 20.000 litros de água por minuto. Haverá outra assim fecunda? O não parar da corrente transvia-se por canais diversos. Atapetados de verde cantador e poldras a dançar. Uma sinfonia, dizem-me.

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Um labirinto. Estreitos percursos e pés atentos. Açudes, hidrovias complicadas e o moinho, além do mais, tudo guardado na história. São minusculos os postigos do sobrevivente e os degrauzinhos pertencem aos andarilhos como as condutas à escorrência da água.

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O bosque mais além testemunha, quanta gente, quanto mar doce! Maior sinal de eternidade não existirá...

Ançã é o tempo impossivel de medir e as pessoas que os anos já não quantificam. Tal é o já ido. Mas, de olhar na fonte fértil e furiosa, - tanto por vir ainda!

 

O Lugar do Grilo

João-Afonso Machado, 14.11.25

Descobri - sessenta e cinco anos depois, descobri - este pequeno espaço na minha terra, teso e granítico como qualquer vestígio visigótico.

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O lugar do Grilo, nos confins a sul da freguesia de S. Tiago da Cruz, no concelho de Famalicão. Onde nasceu, jaz e sempre jazerá o meu coração, e os grilos sucumbiram todos, envenenados pelos adubos quimicos.  Não obstante, um momento saboroso ao olhar, marcando a minha flagrante ignorância! Tão perto e afinal tão distante! Indo nesses caminhos, ao dar com a visão parei a máquina,

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enchi-me de água corrente e de todas as trutas que já não pescarei mais.

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E fiz-me lavrador da vizinha casa de lavoura como um portal de outrora onde entravam, a cada altura, a abundança e a miséria, a pacificidade do ano ou a tempestade e a seca prolongada. Em carros de bois, sempre.

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Mais me enfarinhei como um moleiro descalço arregaçado até aos joelhos,

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tão sem frio como a velha e desiludida mó, cansada de esperar pelas prolongadas voltas triturantes, o grão a esfarelar-se, a sumir no vazadouro feito farinha...

O arvoredo segue por marés acostumadas a que já vivessemos a nossa idade.

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E a vida continua, mais coxa, na jornada que vem da nascente até à eternidade dos oceanos.

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A sua história conta-a bem o lugarejo, é a dos nossos dias terrenos também. Em feliz hora a descobri. E essa história será um empenho meu, uma ilha fortificada e imune aos vendavais urbanísticos que nos impedem de ser quem somos. Seguir-se-ão batalhas conformes...