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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Tal é o poder de Longines

João-Afonso Machado, 01.12.25

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Há um século quase ele é quem manda no Tempo. Dá-lhe ordens - Agora aceleras, alto!, nem tanto, vamos com vagar! - (De resto, é caprichoso...) E o Tempo submete-se, por vezes corre, outras arrasta-se, abrevia sofrimentos, prolonga a vida... Consegue mesmo sustê-la no giro das horas e das manhãs, assim não lhe dêem corda à noite.

Acomoda-se num bolso em que se sinta propriedade - sendo ele o todo-poderoso proprietário do Tempo - e chama-se Longines. Um nome que é uma luva no espírito e na arte de um senhor inconformado e liberto - inconformado e liberto, bem entendido, com e do tremendo despotismo tecnológico.

Longines surge então. Com bastante frequência, acrescente-se. Entre faíscas prateadas que são demolidores argumentos das mais avançadas cromometrias. É como se a elegância dos seus ponteiros logo aniquilasse números silenciosos, todos iguais no ritmo próprio das vozes subalternas. Ou mesmo da contagem decrescente da bomba-relógio que já arrasou os reinos vizinhos. E Longines tranquiliza-nos ainda nas suas relações com os comboios. Porque com eles e com os seus horários, sim, a sintonia e a cumplicidade são totais.

 

Fonte e hidrofenómenos de Ançã

João-Afonso Machado, 28.11.25

Terra de água. De fontes, córregos e moinhos. Lá em baixo, no fundo da vila. Ançã, ribeiras que amolecem o calcário e o tornam pedra sua. Única.

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O ano tem muitos dias, é seco e chuvoso, ganha e perde cores. Estamos no Outono e a fonte de Ançã, cheia de força, lança à superfície mais de 20.000 litros de água por minuto. Haverá outra assim fecunda? O não parar da corrente transvia-se por canais diversos. Atapetados de verde cantador e poldras a dançar. Uma sinfonia, dizem-me.

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Um labirinto. Estreitos percursos e pés atentos. Açudes, hidrovias complicadas e o moinho, além do mais, tudo guardado na história. São minusculos os postigos do sobrevivente e os degrauzinhos pertencem aos andarilhos como as condutas à escorrência da água.

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O bosque mais além testemunha, quanta gente, quanto mar doce! Maior sinal de eternidade não existirá...

Ançã é o tempo impossivel de medir e as pessoas que os anos já não quantificam. Tal é o já ido. Mas, de olhar na fonte fértil e furiosa, - tanto por vir ainda!

 

Não fora o alecrim e as urtigas

João-Afonso Machado, 05.11.25

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A papelaria não havia meio de abrir. E a manhã era exasperantemente curta para tão minuncioso calendário. O homem vinha pelo jornal, como se percebeu ser seu hábito, e explicava - Ela tem a mãe doente, agora atrasa-se sempre um bocadito. - (E depois ainda encontrar um buraco para arrumar o carro, qualquer comprita mais... e o almoço já cá em cima por um canudo!)

O homem, entrementes, sentindo-se certamente o anfitreão, resolveu ciceronear de vaso em vaso o plantio na praça principal. Distinguindo as duas variedades de alecrim, a inodora e a florida, toda cheirosa - Ora passe aí a mão, passe e leve-a ao nariz.

Aroma inimitável. Não fosse o cimento e os passantes e a cidade toda, em volta seriam as gigantescas Papilios esvoaçando para a máquina fotográfica. O homem agora atarefadíssimo, tirava as ervas daninhas do canteiro e maldizia dos funcionários municipais. (Um pouco daquele alecrim trazido para norte... Mas não, não há como...) Falante qual enciclopédia, ele abordava entretanto as propriedades medicinais de algumas espécies que encontrava por ali. Nenhuma, porém, com o dom de fazer chegar a patroa. - E isto são urtigas. Ora passe aí a mão. - Passe você, amigo. Eu já passei vezes de mais quando era catraio. - E ele, como se imune, passava e repassava.

Passou, por fim, em passinho corrido, a dona da papelaria. Não vinha especialmente sorridente. Satisfez a procura do homem e de mais uns tantos clientes de jornais, que também aguardavam. Já quanto a monografias ou história lá da terra, - Não, disso nada temos, não. Pois... passe talvez na Biblioteca.

Não chegara ainda, todavia, a hora de abertura desta... Esperava-se, o tempo encurtava mas não passava...