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Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Apaixonei-me

João-Afonso Machado, 01.04.24

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Não há história romântica que não principie num acaso fatal. Em qualquer tropeção, no capricho das visões súbitas. Como nesse dia, nessa espingardaria, nessa compra de cartuchos, nesse mostruário onde ela resplandescia.

Foi, literalmente, tiro e queda. Um disparo que condenava ao ostracismo Franchi, a minha Franchi, de quem me separei, e determinava uma correria quase infantil atrás do que quer falasse da sua vida, do seu passado. Isto é a realidade neste mundo cão e implacável, e a despedida de Franchi foi, apesar de tudo, dolorosa.

Mas as pernas, os canos justapostos de Francotte, os seus dedos, os seus dois gatilhos, a franzina elegância calibre 20 de busto, - tudo parecia magnetes. Divorciada talvez há dois anos, mantivera o recato e assemelhava-se pela minha idade, um pouco mais nova talvez. Estava disponível, era linda, carnes rijas do melhor aço, sem celulites nem folgas, muito ágil no maneio e de conversa fácil no correr de mão e no shot.

E o seu nome... Francotte! O nome de algumas das maiores celebridades de Liège...

Incapaz de me conter, corri a vizinhança a saber dela. Enfim, fui indo, fui indo,  e cheguei longe, muito longe, sempre cruzando-me, e virando a cara, a congéneres suas, italianas, espanholas, francesas, que nenhuma lhe chegava aos calcanhares. Tornei à sua espingardaria, onde Francotte levianamente se deixou medir, apalpar, e logo aceitou o convite para saír comigo. Uma valente cotovelada no meu ombro, porém, foi o seu protesto contra pólvoras pesadas: à levezinha Francotte custava digerir mais de 24 gramas por cartucho e nada de comeres requentados, arrumados e esquecidos nos armários, causadores de intoxicações e rebentamentos e mãos esfaceladas.

Combinámos ambos o nosso modus vivendi. Francotte viria comigo, para minha casa. Obviamente dormiremos juntos, ela mantendo o hábito de permanecer debaixo da cama toda a noite. - Que é para melhor te valer - asseverou, enquanto eu me babava em promessas de perdizes, coelhos, galinholas e outros acepipes mais.

 

No topo da cidade

João-Afonso Machado, 23.03.24

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Por cá, também não faltam os altos e baixos. E o tempo mais as suas mossas... E os desvarios mundo fora, mais o regresso. Entretanto, os lugares esquecidos, antes habitados. A ideia distante das lavouras, dos bois e de alguns poisos de recreio dos lavradores. Imagens já se diluindo entre a vozearia...

Mas tudo permanecia nos vagos intervalos desse minúsculo momento que é a vida enquanto lá foi. No regresso à terra, consistiu num pequeno apartamento em urbanização de primeiro porte, com arvoredo, um parque todo e a ribeira povoada de fauna, um lugar à margem, fugaz lembrança das lavouras, ainda o paraíso dos cães... Pouco falta para dizer - caçava-se... O apartamento falava todas as línguas - o cacarejar das criancinhas na creche (de manhã, no recreio sob a janela do quarto único), até às tardes ensolaradas escritas na mesa redonda, vagarosas, com vista para as hortas do vizinho do rés-o-chão.

(O homem, cavava, cavava, a tomar posse do pequeno baldio. Eregia hortas. Mas as horas corriam sossegadas, não fosse a exiguidade do espaço jamais caladas.)

Passaram os anos. Com «os bigodes da alma a encanecerem-se» (assim escrevia Camilo em carta a um amigo). Ir lá acima foi quase uma peregrinação. O Sr. Fernando abriu os braços e disse já não cozinhava omoletas (mistas de fiambre e queijo, com batatas fritas, uma delícia). Mas, dadas as circunstâncias, ele também abriria uma excepção regada com o seu magnífico verde branco. Que reencontro! - Ó Sr. Dr., ó Sr. Dr.!... - Gente boa é outra gente!

Ali, no outrora chamado Largo da Cruz Velha, junto a um edifício que só preserva as suas pedras nas memórias mais rijas, em rua onde Famalicão já se despedia a caminho do Litoral. Mas a vila prosseguiu-se no casario e desse marco fronteiro restou uma fachada rasa que guarda ainda alguns azulejos, uma história ainda para ser. E por trás dela o prédio, o andarzinho, o quarto, cozinha e sala, tanta escrita; mais o ganir dos canitos, a horta do vizinho, quiçá uma sua estufa, hoje um negócio formidável com os hipermercados...

 

A extraordinária paixão de Alexandra

João-Afonso Machado, 18.03.24

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Alexandra vivia os espantosos dias da juventude passada com o indisfarçável sarcasmo de um rodopio afinal voltas lentas, solitárias e sempre mais esporádicas. Gongorismos à parte, Alexandra apertava-se em armaduras quase couro, tolhida por comichões e alergias, sem que alguém a coçasse. Como quaisquer horas longas de uma avó com os netos distantes.

Assim foi que inventou o ruído e a troça vã ou vingativa. Modernizou-se em mamas juvenis e deitou o fel cá para fora, bolsado no barro que lhe alisava a cara. A política, as figuras de referência de uns tantos, as convicções dos demais, tudo servia a esse auto-exercício de jovialidade. Alexandra, sonhava ela, - Alexandra ainda estava aí para as curvas.

Acendia o cigarro no topo de uma boquilha, aconchegava ao pescoço a peliça de coelho, dava um toque dans le chapeau... et voilà, o circo criado e o espectáculo sem poder parar!

Alexandra pensava alcançar os seus intuitos. Não pensaria talvez nos do seu séquito. Alexandra porque não "deputava" - não havia partido que a tomasse pelo todo - desfrutava e encaixava-se na coisa pública; frequentava bares finos que ela dizia nova-iorquinos dos filmes. Mas acordava sentindo o frio desprezante da outra metade da cama.

Achava-se mulher com mundo, a espaventosa Alexandra. Deglutindo a paixão nova antes da digestão da anterior. E o Parlamento, sem parança. Onde "deputava", "deputava", e jamais seria deputada; de onde, fosse como fosse, acabaria sempre deportada.

Alexandra era a amiga do Taveira, a tal amiga afamada pela sua conversa sobre o banco inglês onde tão bem conhecia o Déficit - bem vistas as coisas, um excelente rapaz!!!