O ramal ferroviário de Guimarães
Seja como for, apetecia, em dia de tempestade, este passo no abrigo do comboio. Com espera e saída em Lousado, as mais amplas vistas para os excessos aquáticos do Pelhe nas lavras marginais.

O tempo, nestes silêncios de gente, não se impacienta. Passou um suburbano vindo do Porto, um infindável "mercadorias", e a espera prosseguiu, como o tempo, a pendular na gare.
Às tantas o comboio, uma fartura de lugares para tomar assento, espreitando admirados a fúria do Ave. Santo Tirso, a ponte de Caniços, o rio sempre em revolta, quase trepando os salgueiros à sua volta. Ilhas de uma geografia destas semanas, rápidos, águas acastanhadas de tanto escavarem a terra. Vila das Aves, a cidade perdida das indústrias do Passado... Ruínas, fantasmagóricas chaminés... Lordelo, Cuca, Pereirinha, mais do mesmo. As estações já não são as casinhas brancas rodeadas de canteiros e retretes, assim se intitulando nos letreiros das paredes - "retretes". Portuguesas, como fomos. São agora escadas em ziguezague, sobrevoando os carris e abrigos prolongados, vozes de altifalante. (Em Pereirinha descobri uma árvore - uma majestosa e carregada tangerineira.) Vizela depois, com a cidade ao longe; e Nespereira, à sombra de uma fábrica descomunal; um minuto de sossego agrário em Covas e o termo do percurso, Guimarães.
Sem retratos, que as janelas fechadas dos comboios não consentem. Por isso, apenas os que trouxe de uma breve deambulação pelo Berço.
É a pedra que se impõe e rabia nas ruas estreitas

ou aponta aos céus, no Senhor dos Passos.

Parei e almocei. Sozinho, gozando sempre esse silêncio de gente. Depois, novamente o comboio.

Até casa. Até Famalicão.



















