Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Jam Sem Terra

(MAS COM AS RAÍZES DE SEMPRE)

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 09.05.24

IMG_9359.JPG

Nunca eu imaginara o Camões assim despido de vagabundagem ou de idosos ao solzinho. Não, agora tudo era movimento, cor, juventude, tantos calções a cobrirem pernas branquinhas, vindas dos nevoeiros perpétuos.

Ante tal multidão ainda me ocorreu - querem ver que a República se lembrou por fim deste que tanto jeito lhe fez outrora? Porventura haveria comemorações dos seus 500 anos?

Fui subindo o Largo e observando os circunstantes. Eu tinha função, tinha oração de sapiência ali perto, apertara-me até numa gravata e num blaser. Caso único nas redondezas, onde também ninguém falava português, sequer castelhano.

Foi quando ouvi o ímpar, internacional, tilintar das pulseiras da minha Amiga entre o aglomerado de gentes. (Que eu pelo cabelo nunca a distinguiria, tal o vulcão de loiraças junto à estátua...)

- Então por cá?! - exclamou. Pois, viera do venerando Minho, convidado para botar palestra, duvidando estar em Lisboa que jamais conhecera assim.

A minha Amiga explicou então, o cosmopolitismo chegara enfim. O mundo convergira para a nossa Capital. Novos mundos, dizendo melhor. Outras civilizações, outras culturas, outras liberdades e mentalidades. Finara-se, morrera, o nosso provincianismo ingénito. Tivesse eu tempo e interesse para um cafezinho na Brasileira e ela explicaria tudo...

Claro que tinha tempo e interesse e outras vontades muito mais intensas. Descemos, por isso, ao Chiado, onde se acumulavam a thousands of tuk-tuks em formato de Ford T. Num deles uma senhora lindíssima a quem pedi me deixasse fazer uma fotografia de conjunto, a dita ao volante do seu bólide.

- Sim, com certeza, pois claro. - E, palavra puxa palavra, a conversa demorou-se um pouco, literatura apenas, é óbvio, mas por muito alvas e compridas que sejam as barbas de um minhoto, uma senhora bonita, a esverdear dos olhos, é sempre literatura e da melhor...

Foi quando a minha Amiga me beliscou fininho o antebraço. Amuada, furiosa, falando toda brusquidão. Já lhe escasseava o tempo para o cafezinho, urgia tornar ao Largo de Camões. Intercâmbios... E virou-me as costas, quase correndo em direcção às outras liberdades e às outras mentalidades...

 

27 comentários

Comentar post

Pág. 1/2