Vicissitudes ferroviárias

O relógio informa são treze horas, algo embaraçado, bem sabendo que os seus ponteiros terão de completar mais cinco rotações até à partida do comboio. A gare encolhe os ombros, desinteressada, e faz a esmola de dois pombos arrulhando nos cornos de uma locomotiva sozinha.
Dois pombos - só dois! - para cinco horas de dor! No mais, as informações do altifalante e a juventude de uma ou outra estrangeira bonitota, regalo de breves segundos de espreita. Depois a fome, a bucha, um traço de tempo menos tormentoso, a distracção de um telefonema. Mijar? - custa cinquenta cêntimos, há que deixar a vontade chegar ao limite, dois xixis um euro e uma empregada de limpeza, a cobradora, implacavelmente intransigente.
É, tudo empancou neste infindo muro de lamentações. Os pombos piraram-se, agora é um pardalito com algo no bico, anda a fazer ninho.
A pequena sofrida, a escrever aceleradamente num caderno com a sua esferográfica preta, também ela aparenta ser um poço de curiosidade em face do vizinho. Mas quando e para onde esvoaçará?
E assim os xixis não se espevitam; assim o tempo finge alargar a passada. Já só faltam quatro horas e meia para o comboio...